ÉTICA - Brasil tem jeitinhos demais
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 10 de março de 2010
Emerson Dias<br> Especial para a FOLHA 
Projetos e pessoas legais podem ajudar a transformar a comunidade
Cada um deve acreditar e colocar as ideias em prática
No final do ano passado, a Associação Mineira de Apoio a Iniciativas Voluntárias Sociais (Amaivos), sediada em Belo Horizonte (MG), decidiu criar uma ponte entre projetos sociais e pessoas interessadas em trabalhar como voluntárias. Surgiu daí o portal brasiltemjeito.org, onde pessoas comuns, empresas e organizações podem identificar colaboradores e ampliar ações sociais já existentes.
O projeto tem colaboração da jornalista e empreendedora social Cynthia Figueiredo Camargo, que já morou em Londrina, onde desenvolveu vários projetos, como o Roda Memória e a Vila Cultural Alma Brasil. Pelo país afora, ajudou a criar núcleos de comunicação popular e produziu vídeos, programas de rádio e projetos educativos. Destaque para o ''Rádio pela Educação'', desenvolvido na Amazônia (famoso por distribuir aos ribeirinhos aparelhos de rádio movidos à corda), que ganhou diversos prêmios nacionais e internacionais.
De volta a Belo Horizonte, ela se juntou aos voluntários da Amaivos e agora circula pelo Brasil para divulgar o projeto. ''O portal vem para ajudar porque ele é uma plataforma democrática. As pessoas vão fazer contato e esta busca por um país melhor vai ser feita a partir desta conexão'', afirma Cynthia Camargo.
''O Brasil tem jeito sem precisar usar o jeitinho brasileiro?''
É isso que a gente espera. Nós percebemos que já existe maior consciência das pessoas com relação à legalidade. Vivemos hoje uma fase onde um governador (do Distrito Federal) é preso enquanto o presidente fala ''oh, coitado do governador'', sugerindo que a abordagem da Justiça e da mídia poderia ser mais branda. Nós vivemos num país com ''jeitinhos'' demais e precisamos de pessoas que lutem pelos direitos. Por isso que a gente trabalha a comunicação popular, comunitária mesmo, neste sentido de conscientização. Chega de copiar fórmulas e comportamentos antigos. Este ''QI'', o ''Quem Indicou'', tem que acabar, tanto no setor público quanto no privado. Nós temos potenciais individuais para sermos convidados a fazer um Brasil diferente.
Foi pensando nisso que surgiu a ideia do portal?
O portal surgiu ano passado e a ideia é conectar voluntários e gente interessada em doar dinheiro ou trabalho com empreendedores sociais, ONGs e projetos espalhados por este Brasil. É neste sentido que o portal vem para ajudar porque ele é uma plataforma democrática. As pessoas vão fazer contato e esta busca por um país melhor vai ser feita a partir desta conexão. Lá tem uma galeria onde destacamos projetos legais e pessoas legais - nos dois sentidos da palavra - que podem ajudar transformar a comunidade.
Nós navegamos pelo site e encontramos algumas informações sobre a realidade brasileira: 14 milhões de analfabetos, 1,6 mil cidades sem hospitais e outras 500 sem ao menos um médico, entre outros dados relevantes.
Não chega a desanimar o potencial voluntário quando ele dá de cara com essa realidade?
A gente mostra isso exatamente pra dizer: ''Olha, temos que pensar positivo''. Existem problemas, mas nós somos um povo muito criativo e muitos de nós transformam o próprio suor para ajudar o próximo de alguma forma. Penso assim: ''Se eu desenvolvi um projeto e foi legal, tenho um potencial''. Cada um deve acreditar nisso e colocar as ideias em prática.
Seria uma maneira de transferir as atitudes locais, de ajudar o vizinho ou ajudar o bairro, para um âmbito maior, de amplitude nacional?
É exatamente isso. Quando falamos de plataforma virtual, a gente perde o controle de fronteiras. Não existe mais bairrismo. Não é um site lá de Minas Gerais, é um portal para todo mundo usar. O Brasil é amplo, diversificado. As pessoas estão lá em pontos distantes, mas ainda assim a gente vê campanhas sociais feitas para ajudar.
Vai haver a parte real? Encontros, conferências, um corpo a corpo para divulgar o portal e tentar ampliar o alcance do projeto?
Já estamos divulgando em vários lugares. Inicialmente, estamos mais preocupados com a tecnologia no sentido de experimentá-la e observar quem está chegando. Estamos engatinhando ainda, com apenas três meses no mundo virtual. O mais importante é que, se você se cadastra como voluntário, com certeza vai querer conhecer o projeto que lhe agradou lá no portal e vai começar a dialogar com ele. Muitas vezes o grupo que você quer ajudar está do seu lado, no mesmo bairro, na mesma cidade ou no mesmo Estado.
Você morou em Londrina e agora voltou para participar de um encontro sobre Memória e História. A cidade passou por mais uma eleição conturbada, com duas votações polêmicas e enfrenta também uma série de denúncias de escândalos no Legislativo. Londrina tem jeito?
Eu fiquei ''de cara'' quando cheguei aqui no encontro (na Vila Brasil, em Londrina) e encontrei um capim de quase um metro de altura em um terreno onde fica uma praça e uma quadra esportiva, bem ao lado do clube dos idosos e do posto de saúde do bairro. Ô Prefeito! Cadê você? Precisamos de atos concretos!
Mas a população precisa ajudar, precisa cobrar...
Eu sempre pergunto quando é que a gente vai acordar para o Brasil. Mas não adianta ficar só criticando, só vendo o que passa na TV, sentado, prostrado. Temos que dizer: eu posso fazer, eu posso cobrar. Para isso é preciso visualizar de um jeito amplo o local onde a gente mora. Minha casa está bem? Meu bairro está melhor? Minha cidade avançou?
E para isso é importante o trabalho paralelo que você faz: desenvolver projetos ligados à memória, resgatar a importância da história da comunidade?
Isso acontece a partir do momento que você passa a ouvir outro. ''Ele tem uma história? Ele é importante?'' É preciso dinamizar o convívio com a família, com o vizinho e identificar pontos em comum da sua história com a história dos outros. Isso cria laços e fortalece a identidade com a cidade. Quando alguém diz ''eu sou pé vermelho'', este adjetivo tem um significado importante (de ligação) com a terra, com o passado, com o povo e com o desejo de ter uma Londrina melhor.


