Você está dirigindo distraidamente, um som inexpressivo no rádio. É uma tarde de sábado como qualquer outra e os carros se movem mecanicamente cadenciados pela precisão militar dos semáforos. Subitamente um som, desperta sua atenção e agilmente sua mão ergue o volume do rádio e ''aquela música'' transporta-o para um outro mundo, em outro ponto do passado. A melodia saca várias fotos do seu arquivo neurológico e reacende intensas emoções. Isto é muito mais do que simplesmente lembranças: é a reprise completa de uma poderosa experiência acompanhada de todos os estímulos químicos possíveis.
A primeira vez que você a viu foi numa festa, os cabelos negros ondulantes dançavam inquietos sobre seus delicados ombros, ela virou-se: meus olhos velozmente registraram cada detalhe, daí em diante eu não via mais nada, mais ninguém. Boca seca, palpitações, pernas bambas, mãos úmidas, palavras sem nexo, frases descontínuas e uma convicção inexplicável de que aquela mulher é a única no mundo capaz de fazê-lo desfrutar o sabor do amor, a mais sublime sensação de completude na tênue permanência sobre a terra.
Quando finalmente os olhares se entrelaçam, quase como dedos se entrecruzam e como ímãs canalizam cem por centro da atenção. As poucas palavras pronunciadas parecem o eco de um discurso gravado em tempos imemoriais, sorrisos entrecortados por palavras balbuciadas, iluminadas pelo brilho dos seus grandes e relutantes olhos.
Subitamente eclode o desejo há muitos anos acalentado nas fantasias como uma alma gêmea oculta a sete chaves nos porões imaginários da mente, ora inconscientes ora invadindo o consciente tal qual a ponta de um iceberg que oculta todo o seu poder sob as águas.
Quando as mãos se tocam, a ocitocina (hormônio da ligação) provoca uma difusa agradável e reconfortante sensação corpórea levando a uma ''fome epidérmica'' só saciada pela proximidade dos apaixonados. Ficando românticos, ternos e atenciosos: a feniletilamina (molécula do amor) inunda a sua corrente circulatória.
O casal ouve a música, sorri prazerosamente, pois a dopamina os faz pular de alegria e dançar. Com o cansaço vem o suor e a eliminação dos feromônios, os únicos hormônios que podem interferir no comportamento do outro. A testosterona complementa este quadro, pois é o pano de fundo sobre o qual se desenrola o ''drama do desejo'' em ambos os sexos.
Na raça humana processos cerebrais muito mais complexos do que o sistema reptiliano primitivo (animal) comandam a interação sexual e todo o fogo da paixão pode ou não desaguar no oceano do amor onde não há geleiras mas apenas tépidas e profundas águas que acolhem sem apagar o calor dos rios de paixão.
Sim, o verdadeiro amor não permite que a chama da paixão se extingua, mas através da intimidade emocional muito e sempre realimenta este intenso fogo das primícias. O grande afrodisíaco é o amor, amor ágape é o infalível amálgama divino indisssolúvel pelas incontáveis imperfeições humanas. Só o grande Deus pode nos tornar ''eternos apaixonados''.
CALVINO COUTINHO FERNANDES é sexólogo e ginecologista em Londrina

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