Eterna contradição Arlete Salvador
Não foi possível concluir a formação do ministério na semana passada, como queria o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva. O acordo com o PMDB não deu certo, abrindo espaço a uma participação maior do próprio PT. Com a maior parte da equipe montada e anunciada, entretanto, já dá para perceber as feições do futuro governo. E elas são contraditórias.
Os primeiros nomes confirmados contemplaram a equipe econômica. Têm a cara do PSDB, da política monetária implantada pelo governo Fernando Henrique Cardoso, de um certo continuismo. Palavra, aliás, utilizada pelo futuro presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, para manter os atuais diretores da instituição em seus cargos. A segunda leva de ministros, cargos dedicados à área social, como Educação e Saúde, é PT puro. Mesmo assim, a palavra continuísmo apareceu. Na boca do novo secretário de Direito Humanos, Nilmário Miranda.
Será interessante saber como Lula conciliará as duas feições. A contradição entre uma área e outra é simples. A econômica quer economizar. A social quer gastar. Foi assim no governo FHC. A equipe econômica de Lula já deu mostras de que manterá controle fiscal rigoroso, tratará a inflação com mão de ferro e não está disposta a abrir mão do instrumento da taxa de juros para combatê-la. Mudanças nessa política, reconheceram os integrantes da nova equipe da Fazenda, só devem acontecer no médio prazo, com a retomada do crescimento econômico. Soou como tilintar de moedas no mercado financeiro. Tudo dentro das regras atuais.
Sendo assim, que espaço terão para trabalhar os integrantes do time do social? As pastas dessa área são as preferidas de Lula. Elas devem ser a cara do seu governo. Diante do pragmatismo da equipe econômica, prioritário neste momento para dar credibilidade ao país e garantir a estabilidade, é quase certo que as ações no campo social demorem para aparecer. Elas já são, por excelência, campos de intervenção política com resultados de longo prazo. Levará tempo para o governo Lula mostrar a cara social.
Os petistas podem não gostar, mas as comparações com o governo FHC são inevitáveis. Lula construiu o seu ministério de forma muito parecida com a de FHC. O atual presidente colocou na Saúde e na Educação dois de seus mais preparados colegas de partido José Serra e Paulo Renato Souza. Na área econômica, a proximidade maior era com o aliado PFL. A área social sempre esteve subordinada ao controle da situação econômica. Parecia que nunca chegaria a vez do social no governo. Lula está diante do mesmíssimo desafio. Se não inverter essa equação, como prometeu na campanha, estará cada vez mais parecido com o antecessor.
ARLETE SALVADOR é jornalista em Brasília





