Estupro coletivo
O cidadão brasileiro saberá rapidamente ao que me refiro com este título. Ele está habituado a ser aviltado e ignorado nas principais decisões que a ele lhe dizem respeito e ainda a pagar altíssimos impostos, sem qualquer retorno.
Ao comprar um carro novo - seu sonho de consumo - paga de 48 a 54% de impostos e taxas. Ele volta para casa feliz, mas apreensivo com as inúmeras prestações a juros altíssimos, e na incerteza da manutenção de seu atual emprego. O caminho, porém, também conspira contra ele; os buracos em forma de crateras lhe roubam o sorriso que ainda restou e o levam a fazer balanceamento e alinhamento, em média de duas a três vezes mais do que seus irmãos europeus e a frequentar o borracheiro infinitas vezes mais. Indignado com o que lhe retira o prazer de dirigir o seu caríssimo carro, nada mais lhe resta do que comentar com os amigos e engolir a sua revolta silenciosa em contidas lágrimas.
Em casa, enquanto procura relaxar um pouco com a família, o noticiário nacional o informa que os políticos ávidos e sedentos de recursos para os seus partidos e plataformas eleitorais, buscam um fundo bilionário, além do já existente Fundo Partidário, que comumente é usado para fins alheios, incluindo-se até churrasco com correligionários! Ele pode não entender muito bem o alcance dessa pseudo reforma política, mas a sua intuição já lhe assegurou que o que está assistindo, não passa de um ato de sobrevivência de quem resvala para a boca de operações como a Lava Jato. Uma reforma que visa apenas reconduzir aos cargos, cerca de um terço dos deputados já investigados.
Impotente, ele engrossa o número dos que, com a sua difusa revolta e desdém para com a classe política e partidos em geral, põem em risco a própria democracia! Ele ainda não sabe! Mas tudo que lhe vem acontecendo, o transforma no brasileiro médio que poderá se tornar presa fácil de demagogias baratas e salvadores da pátria! O Brasil injusto e cínico, vai gerando assim, filhos que poderão inconscientemente reproduzir situações que a médio e a longo prazo, continuem a estuprá-los! Um círculo vicioso perverso que mata no coração dos cidadãos a vontade de evoluir vendo seus direitos respeitados e tornando-se protagonistas das mudanças necessárias.
Mas se este cidadão viver na região de Londrina e resolver ir visitar um amigo a Cornélio Procópio, pagará quarenta e dois reais de pedágio! Trinta e três centavos por quilômetro, numa estrada simples e mal sinalizada! Rodovias vendidas, em contratos moral e legalmente duvidosos, que não lhe deixaram alternativas para o seu constitucional direito de ir e vir. Ficará de novo indignado e maltratará o funcionário da concessionária sem culpa alguma nesta iniquidade. A cada esquina da vida uma armadilha! A cada dia vivido um estupro que, como na maioria das vezes, acontece em sua casa, na sua pátria, por parte de quem o deveria defender e cuidar!
Os ventos que sopram em seu rosto, são uma mistura de esperança e apreensão. Se nunca antes na história do seu país, tantos homens grandes pararam atrás das grades, é esse também infelizmente o motivo para que os mesmos gigantes da iniquidade, em atitudes covardes de ilegítima defesa, insistam em manter uma pátria madrasta para cidadãos como o protagonista deste artigo.
Lamentavelmente, ainda terá que esperar alguns anos para quiçá, seus filhos comprem automóveis mais baratos, transitem em estradas livres, gratuitas, seguras e alternativas e o sistema político e partidário lhe possibilite uma participação e fiscalização efetivas. E se em seu íntimo, tentações e quimeras o assaltarem, que nunca se esqueça que a democracia com as suas dificuldades é o único caminho que deve defender a duras penas.
MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é padre na Arquidiocese de Londrina
■ Os artigos devem conter dados do autor e ter no máximo 3.800 caracteres e no mínimo 1.500 caracteres. Os artigos publicados não refletem necessariamente a opinião do jornal. E-mail: opiniao@folhadelondrina.com.br





