Estupraram este País
Caminhava eu pela maior e mais disputada das avenidas deste falido Mercosul a Paulista, na capital dos bandeirantes observando as pessoas que entrecruzavam suas sombras sobre as calçadas, disputando, céleres, lugar de destaque na passarela da fama financeira. Observei-lhes o olhar; mortiças jabuticabas ou matizes marronáceas; espelhadas cores do céu ou mel-esverdeados, mas sempre como pano de fundo o opaco dos sem-vida.
Assim caminha este País. Um conglomerado de construções verticais (com duas pernas), que durante o dia corre em busca do nada, e que à noite, entorpece-se na autodestruição consentida, com ou sem pinga ou drogas.
Mercê de planos econômicos e de sanguessugas embonecados que em Brasília se estabeleceram, desfilando a prepotência do todas as safadezas me são permitidas (com raríssimas exceções); e da própria inércia no tentar reverter a sangria a que foi exposta, esta imensa maioria de mortos ambulantes denominada nativos e brasileiros caminha, e a cada dia assiste e aceita a falta de honra e de sentimento pátrio que deveria ser uma constante. Motivados pela ganância, que apreendida foi dos exemplos maiores em todos os poderes (Judiciário, Executivo e Legislativo) ou das maracutaias, desfilam, sem identidade para o Vale do Ostracismo e da Amnésia Absoluta.
Partidos políticos são extensões de desejos inconfessos e estritamente pessoais (existirão exceções?), em nada diferindo do sentencial decreto: Todos para o matadouro! Siga em frente, bando de marginais (referindo-se à população), que lhes sustentam as vaidades, arrogâncias e o arroto, que exala o pútrefo cheiro do espezinhamento das potencialidades nacionais.
Quando interesses se opõem públicos e pessoais eles, os intocáveis e sempre protegidos condutores desta Nação optam por si mesmos, ignorando totalmente os que os elegem. O Judiciário se atrela ao Executivo e este ao legislativo, de forma corriqueira e contínua, trocando entre si... canduras e ternuras, mantendo assim o status quo em todas as esferas de poder federal, estadual e municipal (com honrosas exceções).
Nosso País que já foi dos portugueses, teve um vislumbre embora ilusório de liberdade, às margens do Ipiranga. A verdadeira independência neste País nunca aconteceu, e esta massa ignara, inerme e inerte de mortos caminha pelas ruas sem reivindicar mais nada, anestesiada que foi nos seus valores e princípios de soberania, pois os que se dizem pátrios encarregaram-se de triplicar a dose e efeito do paralisante medicamento, e a cada dia empurram mais e mais fundo, o mortal punhal.
A mediocridade grassa por todos os lados. Nas artes (literárias e outras) premiam-se e estimulam-se algumas aberrações floridas, barrentas ou sócio-degradantes; na música, teatro, cinema e outras idem; o futebol é encabrestado aos desejos dos Havelanges e Teixeiras da vida, levando a alegria do povo à condição de tristeza absurda. Estarei errado? Pensem comigo... e concluam. O que é bom fica de lado, o que se identifica com a mixórdia e lixo, recebe o cargo e benesses de condutores de pensamentos e atitudes.
Um país que vende sua voz e seu ouvir (telecomunicações), suas reservas naturais em todos os níveis; suas hidrelétricas rentáveis; que leva ao ostracismo a independência verde (combustível da cana-de-açúcar); que não investe na terra abençoada e produtora de grãos na mesma proporção da fome e miséria existentes; que coloca os capitais de bancos estatais nas mãos dos estrangeiros; que se rende à deterioração dos valores via mídia ou ao poder dos vendedores de ilusão Norte América, Europa e outros está fadado caso não acorde, ao passaporte eterno para a irremediável e pior das mortes a da identidade.
Existe uma enorme ferida, já gangrenada na garganta, olhar, coração e alma deste povo, que tal gado manso encaminha-se (repito: caso não se exorcize esta torpidez), para a condição de vassalagem e de quintal assumido de todas as raças e dominações.
Mostrem-me um brasileiro verdadeiro para conduzir esta Nação, só um que valha a pena, que se vergue, buscando orientação correta, nas manhãs, tardes, noites e madrugadas ante o Senhor Deus de Abraão, Isaac, José e Jacó, o Deus de Jesus de Nazaré, o Cristo, e eu veria uma esperança para esta Nação cuja alma foi estuprada com nosso aval.
E o pior, muitas vezes, nós os que os criticamos, ainda aplaudimos estes vermes que corroem a soberania nacional.
- LUIZ EDGARD BUENO é escritor em Londrina





