Estresse on-line
Alexandre José Cattelan
A velocidade e a facilidade da comunicação interpessoal que se iniciou há algumas décadas já começa a fazer suas vítimas. Embora a tecnologia da informação seja em si um grande avanço da humanidade, novamente se tem um bom exemplo de mau uso da tecnologia. Assim foi quando a energia nuclear, descoberta no início deste século, foi considerada uma nova fonte de energia inimaginável até então e que poderia ser usada para o conforto de milhões no mundo.
No entanto, seu primeiro uso foi como arma de destruição em massa, quando matou mais de 140 mil no Japão na Segunda Guerra Mundial. Da mesma forma, Santos Dumont fez seu primeiro vôo com um veículo mais pesado que o ar em Paris, em 1906, e sonhava com o dia em que a capacidade do homem em voar diminuiria as distâncias do mundo. Ele estava certo. No entanto, para sua grande decepção, o avião também foi utilizado para a guerra, inclusive para soltar as duas bombas sobre Hiroshima e Nagasaki.
Poderíamos tecer os mesmos comentários sobre várias outras tecnologias e progressos da ciência, como os robôs inteligentes, transgênicos, clonagem de seres vivos, Projeto Genoma e a conquista espacial. No entanto, nosso objetivo aqui é a globalização da informação e suas consequências. Embora a globalização, no sentido amplo, esteja trazendo vantagens inegáveis a uma parcela significativa da humanidade, como acesso a produtos de última geração e a preços competitivos e modernização da economia e da indústria, o acesso instantâneo à informação, uma de suas bases, tem também, por outro lado, trazido sobrecarga sobre quem gera essa informação ou serviços.
O e-mail (correio eletrônico) é um bom exemplo disso. Recebemos dezenas de mensagens por dia, sendo a maioria delas perfeitamente dispensáveis: piadas, propagandas, correntes de solidariedade, lições de moral, informações que não nos interessam etc. Mas no meio dessas, sempre pode aparecer alguma importante, como uma solicitação do chefe, por exemplo. Por isso, não podemos deletá-las simplesmente, sem, pelo menos, ver do que se trata (especialmente as do chefe!). E isso pode consumir um tempo considerável. Devido à facilidade de quem tem endereço eletrônico ou página pessoal ser localizado, surgem solicitações das mais variadas ordens e procedências, muitas, inclusive, internacionais. Mesmo quando não podemos atendê-las, temos que, pelo menos, dar uma satisfação. E lá se vai mais uma parte do nosso dia.
Fato semelhante ocorre com o telefone celular que, embora sendo uma ferramenta e uma comodidade para quem usa, pode ser um grande problema para quem está na outra ponta. Muitos executivos não têm mais paz. Seja no supermercado, na Igreja, no clube, na praia, onde for, nunca estão sozinhos. Sempre que surgir um problema na empresa eles poderão ser localizados em qualquer lugar, a qualquer hora.
As videoconferências que permitem reunir virtualmente pessoas localizadas nos mais remotos lugares do Planeta, já são um problema sério em certas empresas. Embora apresentem a grande vantagem para o funcionário de não ter que se ausentar de casa cada vez que a matriz o convoca para uma reunião, esses encontros virtuais, devido à facilidade, passaram a ocorrer numa frequência muito maior do que as reuniões ordinárias. Isso tem consumido grande parte do tempo precioso desses funcionários, que terão que executar seu trabalho de rotina, muitas vezes, no seu horário de lazer. É claro que a empresa não está muito preocupada com isso. Ou pelo menos, não se preocupa até que o funcionário chegue a um nível tal de estresse que sua produção fique seriamente prejudicada.
A rapidez do trânsito e o volume de informações disponíveis na Internet, embora estejam entre as maravilhas do nosso tempo, também obrigam certos profissionais a manterem-se constantemente atualizados com o risco de tornarem-se obsoletos rapidamente e serem excluídos do mercado. Sem falar no lado obscuro da Internet, que traz o submundo para dentro de nossas casas, prontamente disponível para nossos filhos. Mas isso é apenas um reflexo da complexidade da espécie humana, onde o maravilhoso convive com o abjeto.
Como se livrar de tudo isso? Certamente não será desconectando o computador da Internet, colocando o celular no lixo ou derrubando os satélites de telecomunicação. Na verdade, não há maneira de livrar-se disso; temos apenas que tentar conviver da melhor forma possível. Podemos colaborar no entanto, para que não sejamos também poluidores da informáta. Ninguém deve apertar a tecla send sem fazer uma autocrítica primeiro. Será que esta mensagem é realmente necessária? Será que é um bom momento para ligar para o fulano? Quantas teleconferências já tivemos este mês? E todos podemos colaborar nesse sentido.
- ALEXANDRE JOSÉ CATTELAN é engenheiro agrônomo em Londrina
[email protected]

mockup