Neste Natal chinês de milhões de lampadazinhas importadas, o que importa é refazer o caminho dos três reis magos e seguir em busca da estrela de Belém. Sabe-se que sob sua luz aconteceu um nascimento indicando esperança e salvação para o mundo. E por isso, entre compras e festas, as pessoas às vezes se detém para observar se no fundo dos seus corações se encontra um pequeno Mestre adomercido. Qual é o seu nome?
O menino nascido numa gruta em Belém recebeu mais tarde o nome de Jesus, que em hebraico significa ‘‘aquele que é inspirado por Jeovᒒ. Jeshua foi traduzido para Jesus, que quer dizer Salvador. Quanto ao termo Cristo, não é um nome como muitos pensam, mas sim, um qualificativo. Vem da palavra grega Christos, utilizada para traduzir Meschiach da língua hebraica. Meschiach, ou seja, Messias, significa ‘‘aquele que foi ungido por Jeovᒒ. Mas segundo estudos religiosos, crístico é um estado, é o grau de evolução mais alto atingido por um ser encarnado. Jesus Cristo possuia este grau.
Até hoje se segue a estrela de Belém, pois esse é um dos caminhos de evolução da humanidade. Por esse motivo os homens, entre seus afazeres natalinos, se curvam sobre a gruta dos seus corações e buscam o Mestre. Os que o encontram são possuidos de grande alegria, a mesma sentida pelos reis magos quando viram o menino. Mas como hoje não se usa mais presentear com ouro, incenso e mirra, as pessoas adornam suas cidades com milhões de lâmpadas para significar que o céu estrelado pode estar na terra quando é Natal.
No mágico mistério da noite do nascimento do Menino Jesus, belas lendas também se perpetuam. Neva nos trópicos alguma neve artificial que pode ser da Coréia ou de Tai-Wan, pinheiros cintilam de enfeites, e à meia-noite a ceia de comidas tradicionais é servida. Parece até que anjos se misturam aos homens e um clima festivo tudo envolve. Em meio a expectativa dos presentes, passeia Papai Noel, multiplicado em milhares de criaturas vestidas de vermelho.
Pode ser que Papai Noel seja a figura digamos profana do Natal. Entretanto, seria preciso remover as camadas de lucro comercial que o encobrem para se encontrar seu significado preciso. Afinal, ele é doação, alegria das crianças, generosidade. E nesse ponto, não tem nada de incompatível com Jesus, alegria dos homens. Não há mal nenhum em presépios conviverem com árvores em que Papai Noel deixa presentes. Isso fez parte da unidade espírito/matéria de que é feita o ser humano.
Natal também é reminiscência. E que não se diga que nisto reside um saudosismo exagerado, por que há sempre fragmentos de cenas familiares que retornam iluminando o passado. Assim rostos conhecidos e queridos, que agora só existem na memória e nos retratos, nos sorriem do fundo do tempo. Por causa dessas lembranças inevitáveis, alguns costumam dizer que o Natal é triste, pois sendo momento de encontro, dói na falta dos que não estão mais entre nós.
Mas consolemo-nos, pensando que os que já partiram festejam melhor agora, porque provavelmente estão mais próximos da estrela de Belém. Recordemos o que eles nos deixaram de melhor, inclusive os natais. Tentemos ver seus traços nas novas gerações, que alheias as tradições mais requintadas de outrora, continuam todavia a se revezar junto ao presépio e à árvore enfeitada.
É verdade que muito da tradição do Natal vai se perdendo nos dias que correm. Esvai-se o conteúdo religioso no clima festivo de fim de ano, quando o interesse se volta para os bailes de reveillon e as tão sonhadas férias. Há o cansaço das compras, dos preparativos, que tornam o ato de presentear mecânico e obrigatório. Vai caindo em desuso a prática de enviar cartões. E a própria missa do galo, que como as demais há muito tempo não é rezada em latim, perde a graça e a pompa. Para sacudir os fiéis, o bom mesmo seria que em toda igreja ou catedral pudesse haver sinos e grandes corais, para que a música dos homens, saindo de seus corações, se fundissem com a dos anjos.
Mas a cada época corresponde maneiras de comportar, baseadas em valores que as sociedades fabricam. Por isso, os natais da sociedade de consumo, com relação aos de antigamente, têm de acréscimo a profusão de lampadazinhas chinesas em detrimento da luz das velas e os shoppings de lojas sofisticadas onde de tudo é possível adquirir se se tem dinheiro. Com certeza, também mensagens já são enviadas pela Internet, ao invés do simpático hábito de mandar cartões, sendo que a comida da ceia pode ser comprada pronta, sem a trabalheira de última hora.
Sim, sem dúvida, o mundo está se transformando numa velocidade espantosa. Porém, é interessante verificar que na era dos computadores, da tecnologia de ponta e das sondas espaciais, as pessoas continuam a buscar a estrela de Belém, fazendo-se mais solidárias e mais amenas quando é Natal. Elas sabem que apesar de tudo, há um presépio em seus corações, no qual Jeshua sempre renasce e no qual eternamente brilha a verdadeira luz que nunca se apaga.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é escritora.

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