Estratégia municipal
Assaré (Ceará) e Nerja (Espanha). O que dois municípios tão distantes e diferentes podem ensinar sobre estratégias municipais?
Assaré é um município do Cariri cearense, a 585 km de Fortaleza. Tem cerca de 19 mil habitantes (dois terços desse contingente na zona rural). A atividade agrícola não oferece perspectivas e muitas pessoas migram. Os que ficam, suportam a miséria com certa resignação. Lá vive o maior artista popular vivo do Brasil, Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, com mais de 92 anos de idade. Poeta e cantador que frequentou a escola por apenas quatro meses, ele viveu até os 70 anos na roça. Mais conhecido no exterior que no Brasil, sua obra já foi objeto de teses na Sorbonne, em Paris. Em 1999 a cidade inaugurou o Memorial Patativa do Assaré, mantido por uma Fundação. Já no primeiro ano, recebeu cerca de 8 mil turistas.
Nerja é um pequeno município encravado entre a serra Almijara e o mar Mediterrâneo, distante 50 km de Málaga no sul da Espanha. A 4 km a leste da cidade fica a caverna de Nerja, descoberta em 1959, que originou um museu e um centro de pesquisas paleontológicas. As galerias turísticas têm um moderno sistema informatizado de controle dos fatores ambientais (umidade do ar, temperatura, oxigenação, etc), passarela calçada com corrimão, sinalização e um sistema de iluminação sobre os espeleotemas. Essa infra-estrutura permite controlar o fluxo de pessoas no interior da caverna, oferecer segurança aos turistas e apresentar efeitos visuais espetaculares. Na sala Cascada foi instalado um palco, onde acontecem anualmente os Festivais Internacionais da Caverna de Nerja (ópera, música e teatro). O complexo da caverna recebe 500 mil turistas por ano, que desembolsam US$ 2 milhões para visitá-lo e levar algumas lembranças.
Aparentemente, não há qualquer paralelo entre os dois municípios. Só aparentemente, pois, nos dois casos, há um fenômeno que contribui na construção da imagem do município, e a divulga para muito além de suas fronteiras. No caso de Nerja, muito mais antigo, consolidado, duradouro e tratado de forma mais profissional. Em Assaré, mesmo que tardiamente e ao acaso, um repentista ganha o mundo e possibilita à cidade, longe de tudo, figurar no roteiro de turistas.
Nerja não seria o que é se desse o mesmo tratamento turístico que se dá às cavernas no Brasil. E ensina que atrativos naturais, por si, não se transformam em produto turístico. Assaré mostra que, mesmo em um município essencialmente agrícola, e pobre, há alternativas para o surgimento de fenômenos que estimulem o desenvolvimento, o que exige permanente atenção do poder público local no sentido de descobri-los e amplificá-los. O que mais Assaré poderia estar fazendo para capitalizar esse seu trunfo? Para multiplicar o fluxo de turistas? Possivelmente muito mais do que faz.
Para os dirigentes municipais fica o questionamento: qual é a caverna do meu município? Quantos municípios têm cavernas e patativas hibernando, enquanto gastam energia para promover ocupação e renda para a população em atividades convencionais, nas quais têm poucas chances de concorrer com outras cidades mais bem equipadas? O desafio que se impõe às administrações municipais é perceber verdadeiramente o município, suas virtudes e limitações. Para, com muita sensibilidade e criatividade, empreender coletivamente iniciativas realmente inovadoras de desenvolvimento local.
ADELAR ANTÔNIO MOTTER é engenheiro agrônomo e mestre em gestão pública





