Estranho não entra
Estranho não entra
Egidio Brizola
A decisão dos vereadores de Londrina de fechar a Câmara aos indivíduos comuns e normais depois do leite derramado do caso Cativa, está virando piada na cidade. Por dar a impressão de que quem está lá dentro é incomum e anormal, a idéia induz a pensar que a Câmara vai pôr grades nas suas entradas, mas para impedir a saída de sua gente à rua para morder transeuntes, empresários, contribuintes, esse povo chato que acha que a casa é sua, pois enfiou lá a porcaria do seu voto.
A anedota diz que se já existissem as tais grades, não necessariamente físicas, é muito provável que seria dificultada a extorsão que teria sido tentada por assessores de vereadores junto ao presidente da cooperativa. Com grades no seu caminho, os assessores, que teriam ido pedir dinheiro à Cativa para esconder um certo laudo comprometedor da qualidade do leite da empresa, poderiam enroscar os bigodes e a coisa não desaguaria nesse fedor.
Bem que eles poderiam apropriadamente pular a cerca, mas aí haveria necessidade de esforço. Essa hipótese seria fatal, pois esforço não é o negócio de pessoas desse talhe. Normalmente, é gente que não bota a mão no pesado, a não ser que o pesado do caso seja um malote de cheques. Com algumas exceções, todos gostam muito de uma boa teta para viver no deleite da moleza.
É fato que eles têm a sua versão: numa bela tentativa de dar o drible da vaca e azedar a opinião pública, retrucaram que a empresa, ao saber da existência do laudo, é quem veio correndo oferecer dinheiro a eles. Quando isso surgiu, o placar se equilibrou. Mas apenas momentaneamente, porque a cidade, que não é boba nem nada, logo colocou os dois lados na balança e materializou suas conclusões na forma de fortes manifestações de solidariedade à Cativa. Para detalhes, ver noticiário.
Essa história de meter cadeados na porta da Câmara é conversa para boi dormir, uma excrescência do tempo dos pés-de-coturno. É uma bobagem dos vereadores. Ao alegarem que querem impedir a entrada de estranhos no recinto, os vereadores admitem que aqueles que estão embrulhados neste escândalo são seus... conhecidos.
A casa é do povo, o povo manda lá e pronto, acabou. O povo põe, o povo tira. Se o vereador é fiscal do prefeito, o povo é fiscal dos dois, e precisa estar lá o tempo que quiser, xeretando, metendo o bedelho, dando palpite. Ele, o povo, é o fazedor do vereador. Dele emana o poder. A ele o vereador deve satisfações. O povo não vai gostar desse negócio de teje preso se ultrapassar a placa vermelha do É proibida a entrada de estranhos. E também não vai gostar nada de ter que erguer os braços e ser revistado à entrada de sua própria casa.
Claro que vereador precisa de segurança, pois é pessoa escolhida na praça. É lógico que a Câmara não é casa da Mãe Joana, não pode ser um cabaré de cego sem porta no qual um louco possa irromper e meter bala em alguém (mesmo que haja uma placa informando: Deixe suas armas na portaria). Até a Catedral Metropolitana, que saiu na frente da tal arquitetura antimendigos, tem grades na entrada para impedir acesso de desocupados, esses pobres que vivem atrapalhando a cidade por não ter nem onde dormir. Ou cair morto. Claro que a Câmara precisa de um sistema de segurança e é até incompreensível que até agora não o tenha.
Mas, data vênia, a idéia, como foi posta, é antipática e demonstra inteira falta de sensibilidade dos vereadores. Sobretudo porque veio na fumaça de um escândalo que revelou que o inimigo não está do lado de fora. Está lá dentro da Câmara mesmo, circulando pelos corredores e tomando nosso cafezinho pingado, recebendo nosso dinheirinho, funcionando como um verdadeiro poder paralelo capaz de tenebrosas ações e conspurcando excelências que têm boas intenções. Não há risco de fora para dentro.
Também é fato que os denunciados foram afastados e há um processo em curso. Mas isso não é suficiente para o futuro. Os vereadores devem pensar no conjunto da instituição, ter consciência de que são passageiros, e criar mecanismos capazes de evitar dissabores, constrangimentos e casos de polícia que respingam sobre sua honorabilidade. Eles deveriam adotar essa disposição desde o início da campanha, vendo bem com quem andam, para evitar comprometimento de compadres, para fugir de débitos morais suspeitos, e para escapar de promessas e acertos feitos no lusco-fusco.
Se conseguir evitar pelo menos isso, o vereador chegará à diplomação como cidadão livre e não como refém de seus infelizes desacertos que precisam virar empregos, encostos, comissionamentos, favores. Quem não vende a alma não precisa entregá-la.
- EGIDIO BRIZOLA é jornalista em Londrina





