Estranha euforia pela venda da Sercomtel
Quando a Prefeitura de Londrina estava diligenciando a venda de 45% das ações da Sercomtel para a Companhia Paranaense de Eletricidade, vaticínios foram feitos de que, mais tarde, a empresa estatal acabaria comprando o restante e se tornaria majoritária. Indagava-se também o que a administração pública municipal iria fazer com o volumoso montante da venda, que foi de R$ 186 milhões, à vista. As duas preocupações revelaram-se procedentes, porque agora a Copel está no caminho para assumir o comando da Sercomtel, e o dinheiro da primeira venda sumiu, e para onde foi ninguém sabe e ninguém viu.
O que se constata agora, pelo teor dos pronunciamentos emanados do poder público municipal e publicados ontem neste Jornal, é uma euforia oficial pela possibilidade de ser dispensado um plebiscito e a Copel adquirir logo o número de cotas (ou todas) que a tornem dona absoluta das duas companhias telefônicas: a fixa e a celular. O valor dessa transação em andamento não se sabe, e disto ninguém fala e também ninguém pergunta. Se 45% renderam aquele volume, o controle acionário deve valer muitas vezes mais, porque o valor não será meramente o de um cálculo proporcional e sim o da transferência das empresas à estatal paranaense. E que destino terá esse dinheiro? Quando o governador Jaime Lerner estava implantando o pedágio, muitos aplaudiram, porque ele falava de ''privatização das rodovias'', e nem os deputados estaduais se manifestaram. Menos este Jornal, que por meio de seus articulistas alertava, desde o primeiro momento, que pesados transtornos viriam pela frente com a implantação desse modelo esdrúxulo de pedágio. Não deu outra.
Voltando à Sercomtel, a decisão da venda se estriba em déficits continuados das duas empresas. Mas a Câmara de Vereadores lançou o repto, no início deste mês: ''É a presença da concorrência ou mau gerenciamento?'' A pergunta ficou sem resposta e os vereadores também não foram certificar-se dos números reais desses déficits contínuos e de todas as razões, que não apenas o argumento do forte peso dos concorrentes. O que estranha é esse entusiasmo pelo sepultamento da Sercomtel como empresa londrinense e a transferência de sua titularidade para Curitiba. No ranking das atividades empresariais Londrina irá perder pontos substanciais.
O prefeito quer vender a Sercomtel, e a Copel está ávida de comprar, e imagina-se uma euforia por grande entrada de dinheiro, porque o Município é o outro acionista (com 55%). Quando todos deveriam estar lamentando o impasse financeiro a que chegaram as duas companhias, o clima parece de contentamento oficial pela iminência da entrega da Sercomtel para outras mãos. Algo com sabor de masoquismo. O nome ''estadualização'' das telefônicas tem semelhança com a ''privatização'' das rodovias, mas a verdade é que o Município está perdendo o domínio das suas duas maiores empresas. ''Se a Sercomtel é deficitária, não é incoerência o Estado querer comprá-la?'' - indaga o presidente da Câmara Municipal de Londrina, Sidney de Souza. Muita coisa precisa ser explicada ao povo.





