Estradas rurais: urge um plano municipal
A maioria das intervenções segue sendo feita sob pressão
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quinta-feira, 27 de março de 2025
A maioria das intervenções segue sendo feita sob pressão
Adelar Motter 
A cada novo período de chuvas intensas, o cenário se repete em Londrina: estradas rurais intransitáveis, prejuízos à produção agrícola, comunidades isoladas e desgaste entre munícipes e poder público. O problema, no entanto, não é novo — tem raízes antigas e soluções já conhecidas. Falta-nos, sobretudo, o que outros municípios compreenderam há décadas: planejamento, uso de tecnologia e gestão compartilhada.
Em 2015, neste mesmo espaço, escrevi que “o sucesso na recuperação e conservação de estradas rurais depende da sua integração a um bom sistema de conservação de solos nas microbacias onde estão inseridas”. Essa afirmação continua atual. Estradas não existem no vazio: cortam propriedades agrícolas, interferem na dinâmica das águas sobre o solo e afetam diretamente as atividades econômicas e o ambiente dos lugares onde estão. Por isso, sua construção e manutenção exigem abordagem multidisciplinar, para cada tipo de solo e topografia um projeto técnico — elaborados por profissionais habilitados: engenheiros agrônomos, civis, operadores capacitados e com a efetiva participação dos agricultores.
Esse debate, aliás, não é recente. Já nos anos 1990, no Conselho de Desenvolvimento Rural de Londrina, discutíamos a necessidade de integrar as estradas a sistemas de manejo de solos e águas. Antes disso, nos anos 1980, no Paraná já estavam em pleno desenvolvimento programas de conservação de solos geridos pela Secretaria de Agricultura. Municípios como Toledo e Cascavel foram os primeiros a adotarem práticas de manejo integrado em microbacias. Lá, o processo foi contínuo, técnico e pactuado com os agricultores do entorno das estradas.
Hoje, os resultados são visíveis: Toledo já pavimentou cerca de 400 km de suas estradas rurais (de um total de 1.200 km); Cascavel, mais de 500 km dos 3.500 km existentes. Mas a pavimentação é o último estágio de um processo de melhorias implantado ao longo de décadas. Primeiro, o redesenho dos leitos para melhor integração com os sistemas de conservação das propriedades contíguas. Depois, anos de manutenção adequada e a consolidação até chegar à aplicação de materiais de acabamento — como pedrisco compactado e, por fim, o asfalto.
O que nesses municípios se consolidou como política pública, em Londrina ainda é tratado como emergência episódica. A maioria das intervenções segue sendo feita sob pressão. O foco recai sobre o leito da estrada, sem considerar a bacia no entorno agrícola. Decisões técnicas são substituídas por improvisos, muitas vezes orientadas por urgência política e não por decisão técnica. E, diante da degradação, a responsabilidade recai inteiramente sobre a prefeitura. A ausência de um plano de manejo integrado de solos e águas, aliado à falta de parcerias efetivas, transforma as estradas rurais em um problema recorrente — de alto custo econômico, social, político e ambiental.
Urge, portanto, uma mudança de postura. Precisamos de um plano municipal de estradas rurais, orientado por critérios técnicos, com visão de bacia hidrográfica, metas de médio e longo prazo e participação ativa dos usuários — especialmente os agricultores. Um plano que não seja apenas reativo aos estragos das chuvas, mas de reestruturação, integrando estradas e áreas agrícolas, para se tornar duradouro. Um plano com base técnica — e, sobretudo, com compromisso pactuado.
Adelar Motter , engenheiro agrônomo, especialista em gestão pública.


