Luiz Boschilia
A Estrada do Colono, na Região Oeste do Paraná, transformou-se no topless da Polícia Federal e das demais instituições policiais do Paraná. Com tantos crimes acontecendo, a Polícia Federal está sendo diariamente pressionada pelo Ministério Público Federal em Foz do Iguaçu a cumprir a decisão judicial de fechar a estrada. Na nossa história recente, enquanto a PM Carioca reprimia o topless da Rosimeri na Praia do Recreio, turistas eram assaltados na praia ao lado.
A Polícia Federal sabe que essa não é uma tarefa fácil, dado ao componente emocional que o assunto desperta na região. Em outras oportunidades isso já foi tentado e a PF concluiu pelo bom senso, evitando um confronto com a população que pode causar desdobramentos imprevisíveis. Não que a Polícia Federal não tenha forças para realizar tal tarefa, uma vez que a resistência virá de camponeses, mas simplesmente porque ela acha que tem coisas mais importantes e graves a combater, como o tráfico de drogas pré-Carnaval, a prostituição infantil, a evasão de divisas e o contrabando, que para ao País são muito mais danosos.
Do outro lado, o Ministério Público e a Justiça Federal estão ‘‘mordidos’’ e cansados por mandar fazer e ninguém cumprir. Os dois novos procuradores que atuam em Foz do Iguaçu chegaram ‘‘cheios de gás’’ e como é natural nesses casos, querem mostrar seu serviço, de preferência com muitas luzes e fotografias.
Numa posição um pouco diferente, está o tarimbado procurador Neviton Guedes, ele próprio um defensor das mobilizações populares, que também quer cumprir a lei, mas tentando antes uma saída negociada com a população. Como dizem os mais idosos, ‘‘o saber vem com o tempo’’, e Neviton está no mínimo há dois anos convivendo com a situação.
Como acompanho o assunto desde o início, visitei a região para ver como a população estava reagindo diante das novas ameaças da Justiça. Uma repórter de TV perguntou a um agricultor o que seria feito se a polícia viesse para fechar a estrada. Na sua humildade, o agricultor respondeu que primeiro eles iriam reunir muita gente, em Capanema e Serranópolis do Iguaçu e depois iriam ver.
A dúvida do agricultor é a mesma que assola a Polícia Federal e deveria no mínimo preocupar os jovens procuradores: é viável pagar para ver? Essa uma questão que a Polícia Federal ou quem quer que seja deve pesar muito antes de tentar responder. As experiências policiais em que a força superou o bom senso não têm sido muito felizes no Brasil.
Existe ainda o próprio mérito da questão, as contradições que o Ibama não consegue responder. Nas Cataratas do Iguaçu, no mesmo parque da Estrada do Colono, turistas pagam US$ 35 por um passeio de barco no Rio Iguaçu e o Hotel das Cataratas despeja seu esgoto no rio (dizem que recentemente o esgoto começou a ser tratado). No passeio de barco, quando recentemente morreram sete pessoas, óleo e gasolina se misturam as águas do Iguaçu. Uma escola ambiental reinaugurada recentemente é patrocinada por uma multinacional fabricante de veneno que utilizou mão-de-obra escrava durante a Segunda Guerra.
Isso sem contar os helicópteros que sobrevoam o parque, sobre o qual o Ibama ligeiramente providenciou um estudo – concluindo que os animais já se ‘‘acostumaram’’ com tal barulho. A isso os ambientalistas fecham os olhos (‘‘não que os grandes pecados não possam ser perdoados’’, diz o Senhor). Dessa forma é natural que as justificativas para fechar a Estrada do Colono continuam muito frágeis e sem chances de convencer a população, ou qualquer um que conheça o assunto de perto.
Conclui-se, portanto, que a melhor saída para atender a todos os lados, seria uma composição entre as partes, perfeitamente possível no mundo jurídico, em que a estrada deixaria de funcionar do jeito que está para funcionar com critérios definidos pelo Ibama e a população. O Ministério Público veria então, pelo menos em parte, cumpridas as suas determinações.
O agricultor de Serranópolis que foi entrevistado, com a câmera desligada, completou: ‘‘Aqui todo mundo (referindo-se a um grupo de agricultores no local) já foi mordido de cachorro louco... sem se vacinar!’’.