Os tucanos cantaram vitória fora de hora. Bancaram os meninos peraltas. E para meninos peraltas o negócio é disciplina, castigo - que é o que vai acontecer com o pessoal que tem Sérgio Motta como ídolo. E achava que depois da entrevista dada pelo ministro, à revista Veja, tudo ia continuar como estava.
Esses tucanos vão ter que aprender na marra que o governo só tem condições de funcionar com os partidos que sustentam sua base. Pode não ser agradável, mas é assim, e assim será. O almoço de desagravo a Sérgio Motta, na casa do deputado José Anibal, parecia coisa de mafioso depois de um negócio bem-sucedido. Um almoço para comemorar o quê? Uma entrevista dada em péssima hora, sem a menor razão de ser.
Não, mas o Serjão passou todos os recados que o presidente queria fazer passar. Ora, passar recado numa revista de circulação nacional. Mostrar as vergonhas na frente de todo mundo. Existem outras centenas de maneiras para se fazer isso, sem ser em público.
Num movimento só, Sérgio Motta chamou o ministro da Economia de banana, o ministro da Administração de desastrado e todos os partidos que apóiam o governo de ineptos. Foi uma dose muito grande e uma dose sem sentido porque o governo só consegue governar com essa gente que está aí. E mais ainda: o PSDB tucano é raspa do mesmo tacho de onde saíram esses outros partidos. É tudo igual. Ninguém virou anjinho depois da posse de Fernando Henrique na presidência. Os políticos já estavam lá antes de FHC.
A história da reunião entre Fernando Henrique e Sérgio Motta teve muitas versões. Dizem que eles deram boas gargalhadas da confusão. Outros afirmaram que a convocação de Motta por FHC foi mesmo só para fazer cenário. Até porque os dois tinham se visto no domingo. Além do presidente já saber do teor da entrevista do ministro bem antes da segunda-feira.
A maneira como procederam os dois amigos não deixa de ser um estilo. Mesmo que não seja o mais delicado. E um estilo que sempre provoca consequências, como o pedido de demissão de Luís Eduardo Magalhães da liderança do governo na Câmara. Luís Eduardo é cacique do PFL e filho de Antonio Carlos, imperador da Bahia.
É verdade que Luís Eduardo voltou atrás. Mas a que preço? Na primeira olhada já dá para perceber que cresceu o PFL e murchou o PSDB. Quando Luís Eduardo assumiu ficou acertado com Fernando Henrique que Serjão não se meteria em política; no máximo, só funcionaria nos bastidores. Na noite de segunda-feira, na casa do vice-presidente Marco Maciel, Luís Eduardo avisou que não seria um novo Benito Gama, seu antecessor na liderança que foi esvaziada pelo governo e soube da sua demissão pelos jornais.
A versão que corre é a de que Fernando Henrique implorou para que Luís Eduardo não saísse. FHC teria dito que, se fosse necessário, demitiria Sérgio Motta. Uma promessa que ele não poderia cumprir devido às consequências que poderiam resultar da medida. Sérgio Motta está tocando as privatizações das empresas de telecomunicações. Coisa que pode render mais 50 bilhões de reais para o governo. Deixar esse processo no meio daria complicações.
De qualquer forma, Luís Eduardo ficou. Mas, seguramente, vai cobrar muito em troca. Toda essa história parece ter esperteza demais. E não dá para só uns poucos serem os únicos espertos.

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