De acordo com dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), em torno de 630 mil cirurgias plásticas foram realizadas entre setembro de 2007 e setembro de 2008 no Brasil - a maioria delas (73%) estéticas. Lipoaspirações e implantes de próteses de mama são os mais procurados.

A quantidade de procedimentos estéticos aumenta na mesma proporção do número de pessoas que enfrentam sequelas ou até morrem por complicações. ''Até esteticistas estão fazendo o que só competiria a médicos''. A afirmação é do vice-presidente da Academia Interamericana de Estética Médica e Multidisciplinar, Luiz Fernando Lomba.

Lomba alerta que é preciso muito cuidado antes de optar por algum procedimento estético e se declara um exemplo. Mesmo pesando 143 kg tem medo de encarar uma cirurgia bariátrica (redução de estômago).

Como o senhor vê a busca radical pela beleza?
Para que uma pessoa tenha beleza, primeiro precisa de saúde. Tudo que é radical, feito com muita pressa, não é bom. Quando se trata da saúde, o procedimento deve ser feito. Mas se o procedimento possui somente objetivos estéticos, o caso deve que ser melhor avaliado.

Há profissionais médicos trabalhando com estética de forma irresponsável?
Sim. A legislação brasileira permite que o médico faça o que quiser. Ele pode operar sem ser cirurgião. Muitos não procuram especialização, aprendem com colegas que às vezes também nem sabem fazer direito. Coisa de aventureiros. E é mais aventureiro ainda quem se submete a esse tipo de profissional. Fazer uma lipoaspiração dentro de um consultório é coisa para maluco. Antes de procurar uma cirurgia, o paciente precisa conhecer o médico, o que ele fez. Hoje, existem várias sociedades médicas que podem comprovar a competência do profissional.

E em relação aos esteticistas, há profissionais agindo de forma irresponsável?
É muito bem definido o que o esteticista pode fazer e o que o médico pode fazer. Na verdade, muitos esteticistas fazem o que só médico deveria fazer, como por exemplo a drenagem linfática. Quando se realiza esse procedimento, a atenção precisa ser redobrada, pois o paciente - principalmente as mulheres - pode ter varizes internas, que são invisíveis externamente. Isso é perigoso, já que pode provocar uma trombose quando essas varizes são pressionadas. Na minha opinião, drenagem linfática só deveria ser feita dentro da sala de cirurgia. Além disso, é preciso ter certeza de que há passagem circulatória nas regiões onde a drenagem será feita, o que pode ser feito com um exame chamado ecodoppler.

Como o senhor avalia a grande procura por procedimentos estéticos cirúrgicos?
Isso é inerente ao culto ao corpo, à vaidade humana. É bom, pois quanto mais você se preocupa com você mesmo, mais vai se cuidar. Hoje vemos que os adolescentes estão inseridos em uma cultura de vida mais saudável. Só não pode ter essa violência toda, com mães se projetando em filhas, embarcando em qualquer modismo. Mas o culto ao corpo dentro do ''padrão saúde'' é maravilhoso.
Eu sou um exemplo prático. A cirurgia bariátrica (redução de estômago) está na moda. Não sou contra a cirurgia. Sei que tenho obesidade mórbida, que corro riscos, mas quero fugir do procedimento. Tento me controlar com medicamentos, faço reeducação alimentar, já perdi 28 quilos. Tem gente se submetendo à técnica para perder 15 ou 20 quilos.

O senhor costuma abordar em suas palestras as intercorrências que acontecem dentro dos centros cirúrgicos. Por que tomou essa iniciativa?
As intercorrências são coisas que não deveriam acontecer, mas que acontecem. O problema é que ninguém queria falar sobre elas, por isso resolvi começar a tratar do assunto nos eventos dos quais participo. Como ninguém queria mostrar, montamos um congresso.

Ainda tem muita coisa escondida?
Existem alguns cirurgiões que mostram tanta coisa ruim para seus clientes que acabam assustando. Com a nossa iniciativa, os erros começaram a ser apresentados em congressos. E é importante que haja transparência, pois não são erros de responsabilidade, mas fatalidades.

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