Este rei está nu
Este rei está nu
J. Roberto Whitaker Penteado
O conto infantil A Roupa Nova do Rei pertence ao imenso acervo do dinamarquês Hans Christian Andersen. A lenda, todavia, é conhecida, na maioria dos idiomas, como As roupas novas do Imperador - o que atesta sua provável origem oriental. Diversamente de nosso Monteiro Lobato - que buscava na própria imaginação as aventuras do Picapau Amarelo - os autores infantis tidos como grandes - Perrault e os irmãos Grimm, além de Andersen - eram colecionadores de antiquíssimas histórias, transmitidas oralmente de geração a geração.
Cinderela (em português, de fato, a Gata Borralheira), Branca de Neve ou o Pequeno Polegar são histórias que se apresentam disfarçadas em centenas de versões diferentes nas mais diversas culturas, desde a China distante, à Oceania, África e Américas.
Mas a Roupa Nova, seja do rei ou do imperador, é uma dessas histórias moralistas que mais claramente indica a sua origem política, de uma época em que literalmente rolavam as cabeças dos que ousavam se opor aos poderosos. Desvairado de poder, o monarca desfila nu em pelo e o populacho finge que vê as roupas inexistentes, até que a farsa é denunciada pela inocência (e impunidade?) de uma criança.
Lembrei-me da fábula ao desligar o botão da TV depois de mais uma pífia exibição do nosso time, contra a Jamaica, e de refletir que há muito tempo, mas muito tempo mesmo, que não vemos a seleção brasileira jogar bem, como pode e deve.
De fato, já passa de uma década a falta de qualidade do futebol da seleção. Ganhamos, em 94, pela incompetência dos adversários, por uma falta cobrada com perfeição pelo jogador Branco, contra os holandeses, e pela roleta da sorte, que rodou em nosso favor, nos pênaltis da partida final. Depois disso, conseguimos até perder do Japão, da Nigéria (feio) e sermos goleados pela Noruega. Acho perfeitamente sustentável a opinião de que nosso último grande time jogou na Espanha - em 1982 - e tinha, como craques principais, Zico, Junior e Sócrates.
Não se trata de saudosismo. É bem possível que o Brasil nunca tenha tido tantos jogadores de primeira grandeza como agora. Provam isso os muitos milhões de dólares que os riquíssimos clubes europeus se dispoem a investir na sua contratação
Ao mesmo tempo, contudo, creio que são esses milhões que estão destruindo o melhor futebol do mundo. São tantos e de tal monta os negócios feitos paralelamente ao futebol que ninguém mais tem coragem de dizer que nosso time joga pessimamente; que os jogadores erram a maioria dos passes e chutam a esmo, na ânsia de se livrarem da bola e das responsabilidades; que os juízes intimamente desejam que todos os jogos terminem em 0x0 e que Romário, Ronaldinho e a maioria das estrelas milionárias estão jogando muito, mas muito mal mesmo.
Qual o narrador ou comentarista que vai se arriscar a criticar, no ar, um mau espetáculo que está custando tanto ao patrocinador? Por que a Nike deverá arriscar seu investimento permitindo que a seleção brasileira jogue, e talvez perca, contra times de primeiro nível, como Itália, Alemanha, Argentina ou Inglaterra, se tem audiências igualmente numerosas com sparrings medíocres como Guatemala, Costa Rica, Arábia Saudita, Austrália ou Jamaica? Foi assim que aconteceu com o pobre do Mike Tyson, até chegar à loucura antropófaga...
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é diretor da Escola Superior de Propaganda e Marketin (Rio de Janeiro)





