Estatizar o Banco Central - André Stumpf
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quinta-feira, 22 de abril de 1999
André Stumpf 
Nos últimos anos, a política econômica esteve sempre no centro do debate político brasileiro. Os sucessivos planos de estabilização, as muitas moedas, os fracassos seguidos e o persistente socorro aos bancos colocaram o assunto na ordem do dia. O presidente Fernando Henrique Cardoso foi eleito e reeleito como consequência do controle da inflação e de uma certa tranquilidade para investidores externos e internos.
Política, no Brasil, foi sempre medida pela oscilação dos índices da bolsa de valores e pelas taxas do dólar. Os economistas, querendo ou não, ocuparam um papel decisivo no País, desde a redemocratização. Aliás, antes. Os militares, que não gostam de economia, chamaram os técnicos para assumir a parte mais difícil da administração pública. Eles foram ficando. E passaram a ter um poder desproporcional à sua importância. Começaram a determinar os caminhos do País, a traçar políticas e produzir planos.
Não se percebe na atuação desses técnicos, quando em missão no governo, nenhuma preocupação social. O homem foi reduzido a um número. A um dado nas séries estatísticas. Eles foram mais longe e começaram a influir na política. A determinar limites para o Congresso e a prescrever a agenda dos parlamentares. O centro desse poder é o Banco Central.
Seus dirigentes devem ser pessoas de reputação ilibada e notório saber na ciência econômica. Precisam ter os nomes aprovados pelo Senado. Nas últimas décadas vinte pessoas se revezaram no comando daquela instituição. A lembrança foi feita pela colega Mirian Guaraciaba, competente repórter. Todos chegaram a Brasília como modestos e humildes professores universitários. Saíram ricos, banqueiros ou consultores de sucesso no Brasil ou no exterior.
Há, no Banco Central, essa notável faculdade. As pessoas passam por ali e mudam de qualidade. Pode ser coincidência, mas é fato. Basta examinar a lista dos que frequentaram aqueles belos gabinetes, no imponente prédio no centro da cidade. E fazer a comparação entre o antes e o depois. Cada um tire suas conclusões, inclusive a Comissão Parlamentar de Inquérito que anda tropeçando em evidências do que há muito se comenta em Brasília. O assunto só é novo porque chegou às páginas dos jornais. A desconfiança é antiga.
Tão antiga que durante os debates ao longo da Assembléia Constituinte, o saudoso senador Severo Gomes, que pertencia ao PMDB de São Paulo, e foi o relator do capítulo da ordem econômica, pedia, abertamente, a estatização do Banco Central. Esse é um assunto antigo. Severo falou sobre isso em entrevistas, em plenário e nas muitas conversas que tinha em seu gabinete. Era um local de trabalho agradável.
Ao final da sessão no Senado algumas pessoas iam até lá conversar, trocar idéias. Cito alguns que conhecem essa história de perto: o professor Dércio Garcia Munhoz, o ministro Sepúlveda Pertence (na época, procurador-geral da República), Luís Carlos Sigmaringa Seixas, entre outros. O então ocupante do gabinete vizinho também conhece a história, seus motivos, suas razões. Era o senador Fernando Henrique Cardoso, na época integrante do PMDB de São Paulo. Há mais de dez anos há um consenso entre os políticos de que é necessário estatizar o Banco Central. A CPI poderá apressar essa providência, tão necessária, quanto urgente. E acabar com a estranha simbiose entre altos funcionários públicos e o sistema financeiro, na definição do subprocurador-geral da República Cláudio Fonteles.
- ANDRÉ STUMPF é jornalista em Brasília


