Estão matando a beleza do futebol
O saudoso escritor uruguaio Eduardo Galeano, escreveu, em 1995, o livro "Futebol do sol e à sombra". Nele, o autor de "As veias abertas da América Latina", constata: "A história do futebol é uma triste viagem do prazer ao dever. O jogo se transformou em espetáculo, com poucos protagonistas e muitos espectadores, futebol para olhar, e o espetáculo se transformou num dos negócios mais lucrativos do mundo. O futebol profissional não tem escrúpulos, porque integra um sistema de poder inescrupuloso". Duas décadas depois a Procuradoria Geral da Justiça dos Estados Unidos e o FBI, comprovaram que a Fifa, entidade máxima do futebol, é uma casa de tolerância e de crimes financeiros a partir da Suíça. Anteriormente na Europa, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), denunciava: "Os clubes de futebol são vistos por criminosos como veículos perfeitos para a lavagem de dinheiro. A lavagem do dinheiro do futebol se revela como mais profunda e mais complexa do que se pensava antes".
No Brasil há mais de década, com visão premonitória, o senador Alvaro Dias instalava no Senado a CPI do Futebol. Ao longo de meses constatou-se o uso e abuso do esporte para aplicação de variadas modalidades de crimes financeiros. A CBF, à época presidida pelo notório Ricardo Teixeira, envolvido nas investigações do FBI, aliado à maioria das Federações estatuais e um grupo de parlamentares apelidados de "bancada da bola", reagiram com ímpeto incomum e de maneira desavergonhada. Ao seu final, o relatório conclusivo foi entregue ao Ministério Público Federal, à Receita Federal e à Polícia Federal. O deputado paulista Silvio Torres, integrante da CPI, atesta: "Havia 34 indiciamentos, 13 eram só de Ricardo Teixeira. Infelizmente, a justiça brasileira não funcionou, diferentemente da americana, que em dois anos está resolvendo tudo".
O atual vice-presidente e ex-presidente da CBF, José Maria Marin, está dormindo em prisão na Suíça. Outros, temendo a extradição para os EUA, refugiaram-se em território brasileiro. Na recente Copa América, no Chile, o atual presidente da entidade, não se fez presente de maneira inédita. Certamente, não foi por motivo de saúde frágil. No passado a seleção brasileira era paixão popular, no presente deixou de ser símbolo nacional, mesmo usando as nossas cores e cantando o hino, com alguma dificuldade. Transformou-se mercenariamente em uma mina de ouro, sendo propriedade privada da CBF e de empresários inescrupulosos. Até 2022, a seleção está obrigada a cumprir contrato com a ISE, uma empresa de fachada com sede no paraíso fiscal Grand Cayman. Onde é dona de mera caixa postal, não tendo escritório e nem funcionários. O contrato foi assinado pelo Ricardo Teixeira, obrigando a participar de jogos pelo mundo afora, com a maioria dos seus melhores jogadores.
A recente Copa do Mundo no Brasil demonstrou que corrupção e futebol, transformaram-se em irmãos siameses. No campo, os 7 a 1 da Alemanha e os 3 a 0 da Holanda culminaram no vexame histórico. Na Copa América, a recente eliminação pelo Paraguai, comprovou que o futebol no Brasil está sem rumo e direção. A CBF e a maioria das federações estaduais estão matando a beleza do que já foi um dia a paixão incontida de milhões de brasileiros. Precisa voltar a sê-lo. Atualmente, só os clubes despertam paixão e alguma emoção.
Nesse cenário devastador, a justiça norte-americana acaba de dar substancial ajuda. E o Congresso Nacional com a "CPI da CBF", recém-criada, pode, com investigações rigorosas, alavancar a ressurreição do nosso esporte bretão. Expulsando os dinossauros e vendilhões corruptos que jogaram o futebol brasileiro no mar de lama do presente. O Estado não pode ser contemplativo e omisso, onde uma empresa privada usa e abusa de um símbolo nacional de maneira desavergonhada: a seleção brasileira.
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