Estamos muito longe da democracia
Escrever sobre a polarização a que o debate político brasileiro tem se reduzido, é chover no molhado. Constatação óbvia e que só não é banal pela quantidade de pessoas que têm se deleitado com a tal polarização, o que é, de fato, preocupante.
A sociedade brasileira está malservida de política, de suas instituições e agentes. De uma parte do espectro político vem o desserviço de imputar ao atual governo todos os males da sociedade e da política brasileira. O Partido dos Trabalhadores não inventou o patrimonialismo, esse velho conhecido nosso. Ele apenas o usou com uma sede intensa. Não falo de maestria, pois se assim o fosse, talvez não tivesse sido pego, como a grande maioria dos políticos que até hoje ocuparam seus postos de comando na sociedade brasileira. De outra parte, vem a defesa do indefensável. Porque a direita, e mesmo seus setores radicais e autoritários, vem atacando sistematicamente o atual governo federal e suas políticas de assistência social, boa parte da esquerda tem se contentado em defender tais políticas e o governo, esquivando-se do necessário debate sobre um sistema político que perdeu sua credibilidade há tempos.
O que fica obnubilado nesse debate entre surdos é justamente um sistema político que se reproduz à revelia da sociedade brasileira, ou melhor, com seu passivo e cínico consentimento. Desde a abertura democrática lenta, gradual e segura da década de 1980, até o governo Dilma, nada se fez em política que não buscasse aceitação e a bênção dos setores mais conservadores e tradicionais. O que se tem visto atualmente, e de modo escandaloso, é uma ágil mobilização desses mesmos setores para entregarem os anéis sem perderem os dedos. Se a metáfora ainda não é o suficiente para leitores incautos, quem está prestes a fincar mais profundamente suas raízes no sistema político depois da atual crise estar superada são os representantes mais fiéis de um estilo oligárquico de fazer política.
Percebe-se que são as figuras mais fiéis à perpetuação de um sistema político autocentrado e ilegítimo, os que hoje têm se colocado como os grandes defensores das demandas repercutidas pela sociedade nas últimas manifestações de rua contra a corrupção. Em nome do fim da corrupção, se perpetua esse mesmo sistema, que até hoje não fez outra coisa senão se alhear da sociedade às suas próprias custas. Já o governo federal, sua base aliada e os setores da sociedade que se sentem por eles representados, têm minimizado obscenamente a importância dos desvios, da má gestão pública, dos escândalos e dos ataques que têm recebido em nome de suas justificativas em defesa das políticas assistenciais e da implementação de uma que outra política que contraria os interesses das "elites" brasileiras. Nunca é tarde lembrar da fala incrédula de Lula quando, presidente, se lamentava das críticas que recebia dos ricos, sendo que estes tinham sido, na sua opinião, os mais beneficiados em seu governo.
Sendo assim, seja qual for o desfecho da atual crise política brasileira, tudo aponta para a perpetuação do mesmo sistema, seja pela esquerda ou pela direita. A primeira justifica seus particularismos e a defesa intransigente de sua manutenção no poder, em nome de ideais que acreditam ser os únicos que representam verdadeiramente a democracia. A segunda sai-se muito bem, propondo mudanças epidérmicas com ares de mudanças profundas (aquelas que a maioria da população brasileira gostaria de ver), alterando as peças do tabuleiro, sacrificando apenas aquelas mais detestadas e que farão acalmar a turba que periodicamente tem saído às ruas pedindo sangue e ditadura.
De qualquer modo, estamos muito mal de política. E essa, só mesmo de longe se pode chamar de democracia.
DANIEL GUERRINI é professor do departamento acadêmico de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Tecnológica Federal do Paraná Câmpus de Londrina.
■ Os artigos devem conter dados do autor e ter no máximo 3.800 caracteres e no mínimo 1.500 caracteres. Os artigos publicados não refletem necessariamente a opinião do jornal. E-mail: opiniao@folhadelondrina.com.br





