Estados Unidos: a espiral consumista
O novo presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, teve relativo êxito em cumprir uma parte importante de seu programa eleitoral: o de aplicar grandes reduções de impostos em favor das classes média e alta de seu país. Trata-se de um ato importante de política econômica que pode ter muitas consequências, tanto para os Estados Unidos quanto para o mundo inteiro. A principal consequência do corte de impostos aos ricos é que eles obterão um aumento do poder aquisitivo, ou seja, que os ajudará a consumir mais.
O que essa gente comprará com o dinheiro adicional? Por certo que não comprarão alimentos ou roupas comuns, pois suas necessidades básicas já estão mais do que cobertas. Essas pessoas favorecidas pelo corte de impostos gastarão seu dinheiro extra para comprar uma casa maior, um automóvel maior, tapetes maiores ou novos móveis, viajando mais, bebendo vinhos mais caros, comprando outros objetos de luxo ou usando cosméticos mais caros. Eles fazem o que indicam seus padrões de consumo típicos das classes média e alta.
Provavelmente, haverá um auge do consumo num futuro próximo. As pessoas mais pobres, que não pagam impostos ou pagam pouco, não participarão desse boom, isto é, seu consumo será mais ou menos o mesmo de agora. Isso significa que a economia se reorientará, até certo ponto, para si mesma, para atender à crescente demanda de bens luxuosos das pessoas mais ricas. A distância entre os norte-americanos que têm e os que não têm se ampliará. Os Estados Unidos usarão uma parte ainda maior dos recursos mundiais que utilizam agora, incluindo produtos que têm um importante impacto ecológico, como petróleo e carne.
Em definitivo, isso não aliviará as tensões entre os Estados Unidos e os outros países, entre o Norte e o Sul, nem diminuirá a carga sobre os ecossistemas, e, sim, fará tudo ao contrário. Os norte-americanos estão enviando sua mensagem no sentido de que não dão atenção ao resto do mundo nem se preocupam com o que lhe ocorrer. Penso que essa não é uma boa mensagem nem um bom exemplo para as demais nações. É precisamente o oposto. Numa época de crescentes e agudas crises ecológicas, na qual muitos, se não a maioria, dos ecossistemas do planeta desfalecem sob a pressão da superexploração e quando alguns recursos naturais entre eles a água potável escasseiam, as políticas econômicas do novo governo norte-americano são simplesmente irresponsáveis e de visão curta.
Essas políticas forçosamente produzirão problemas sociais, econômicos e ecológicos adicionais, bem como tensões, frustração e raiva. Mais e mais pessoas através do mundo perguntarão que direito têm os norte-americanos de usar e gastar mal uma porção leonina dos recursos naturais cada vez mais escassos de toda a humanidade. A resposta dos Estados Unidos a tal pergunta parece ser a de uma arrogante superpotência. Ao mesmo tempo em que reduz os impostos dos grandes consumidores, Washington se dispões a gastar mais para construir uma barreira à prova de mísseis ao seu redor.
Tudo indica que os Estados Unidos querem continuar sendo uma ilha de prosperidade em meio de um oceano de miséria e escassez. Pode ter êxito por um curto prazo, mas não mais adiante, pois não se pode isolar a si mesmo do desperdício, da frustração e dos males que está criando. Os Estados Unidos são responsáveis em alto grau pela iminente crise ecológica global. Tendo em conta as perspectivas de tal crise, os países ricos do mundo deveriam agir responsavelmente e introduzir mudanças fundamentais em suas políticas econômicas, bem como em seus modelos de consumo. Pelo contrário, o presidente Bush se nega a cumprir o acordo de Kyoto, pelo qual os Estados Unidos tinham se comprometido a reduzir as emissões de gases que afetam o clima da Terra.
Em lugar de estimular o consumo e esbanjamento por meio dos cortes de impostos que favorecem os ricos, os governos deveriam usar seus excedentes, por exemplo, para criar reservas e infra-estrutura que todos provavelmente necessitaremos num futuro não muito distante, na medida em que o clima global se torna cada vez mais errático e que os desastres naturais ameaçam cada vez mais as pessoas em todo o mundo. A época atual exige que todas as nações tenham consciência de sua responsabilidade mundial. Infelizmente, tal consciência parece estar em grande parte ausente das mentes dos novos governantes dos Estados Unidos.
- JAAN KAPLINSKI, escritor e poeta, ex-deputado no Parlamento da Estônia e escreve da cidade de Tartu (IPS)





