Estado sem identidade
Aos 160 anos de emancipação política, o Paraná ainda carece de uma identidade própria. Historiadores debruçam-se para tentar explicar a falta de uma unidade cultural paranaense. Conforme reportagem publicada ontem pela FOLHA, o Estado divide-se em três regiões muito distintas que foram determinadas pelo tipo e pelo período de colonização.
O primeiro polo - mais antigo - formado por Curitiba e litoral e parte dos Campos Gerais concentra o poder político e os investimentos econômicos do Paraná. É a região mais industrializada também. O segundo polo inclui todo o Norte do Estado e sua grande influência do Sudeste, em especial de paulistas e mineiros. A terceira e última área abrange o Oeste e Sudoeste com colonização mais recente de gaúchos e catarinenses de descendência italiana e alemã. Nestas duas regiões predomina o agronegócio e os recordes de produção que ajudam a colocar o Paraná como o quinto Produto Interno Bruto (PIB) do País, segundo levantamento do IBGE relativo a 2011. Essas fortes características regionais, no entender de especialistas, bloqueiam o surgimento de uma identidade estadual.
Além dessa população ser etnicamente heterogênea, não há uma festa estadual que mobilize o paranaense integralmente em data alguma tal qual comemora-se o 2 de Julho na Bahia ou a Revolução Farroupilha no Rio Grande do Sul, por exemplo. O modo de falar é outro traço que mostra essa falta de identidade paranaense.
O historiador Sergio Odilon Nadalin, professor aposentado da Universidade Federal do Paraná, dá uma pista do que pode ter contribuído para essa falta de unidade estadual. Ele lembra que a expansão da malha viária e a interligação com a capital tem menos de meio século. Ainda hoje a ligação entre Londrina e Curitiba é feita por pista simples em boa parte do trajeto. Só este ano a tão reivindicada duplicação da PR-445, que corta a cidade e a vizinha Cambé, está sendo viabilizada.
O professor de História da Universidade Estadual de Londrina,
Edson José Holtz Leme, aponta outro detalhe que afeta a construção de uma identidade própria. "Muitas decisões de governo distanciaram ainda mais o interior de Curitiba. Este distanciamento muitas vezes cria uma antipatia, o que resulta numa crise representativa, uma sensação de que nenhuma região é ouvida", analisa. O jornalista Widson Schwartz credita a culpa a essa falta de integração cultural à capital. Segundo ele, Curitiba funciona como uma cidade-estado, "onde todos os governadores são cooptados para trabalhar a favor de interesses da região metropolitana".
É preciso que as lideranças políticas do Paraná olhem mais para o interior e procurem desenvolver o Estado de maneira equilibrada. Enquanto perdurar a desigualdade de investimento entre capital e interior, o sentimento de pertencimento continuará distante da maioria da população paranaense.





