O presidente Lula disse ao papa Bento XVI, que vai ''preservar e consolidar o país como estado laico''. Laico, segundo definição do dicionário, é ''aquele que é hostil à influência, ao controle da Igreja e do clero sobre a vida intelectual e moral, sobre as instituições e os serviços públicos''.
Em visita à FOLHA, o padre Romão Antonio Martini Martins afirmou que a posição do governo brasileiro é positiva para a Igreja, que, mesmo atuando independente do poder público, consegue cumprir seu compromisso social. Confira a entrevista.

Como o senhor interpreta a declaração do presidente Lula dizendo que precisa consolidar o país como um estado laico?
Quando o Lula fala que o Brasil é um estado laico, está querendo deixar bem claro os limites entre a Igreja e o Estado, mostrando que o governo não tem compromisso com nenhuma igreja. Nós da igreja não somos contra. A melhor coisa é o estado ser laico mesmo. A pior fase da igreja foi quando atuava junto com os governos.

Até que ponto a igreja pode interferir no estado? As ações sociais dela são fundamentais para o desenvolvimento do país?
No fundo, o estado precisa da igreja. Muitas vezes criticam a Igreja pelo fato de ela não pagar determinados impostos, mas se não precisasse fazer muitas ações que são para o governo fazer, pagaria os impostos que tem para pagar e sobraria dinheiro ainda. Acontece que a Igreja faz muita assistência social, trabalhos em hospitais, em creches, orfanatos e outras entidades em nome da caridade. Quando se fala em aborto, por exemplo, parece que a igreja está se metendo em assuntos do estado, mas ela age apenas a partir do ponto de vista ético.

A vinda do papa vai fortalecer os dogmas da Igreja?
Na verdade, o papa não veio com esse objetivo. A imprensa fica falando que o Papa veio para recuperar o número de fiéis, e isso não é verdade. O objetivo principal da vinda do papa é a 5 Conferência. Foi aproveitada essa possibilidade do encontro com os jovens, da canonização do Frei Galvão. Pode observar que o papa não está, em nenhum momento, tratando de evangelho, de gente que sai da Igreja. Ele está batendo na tecla de valores universais, como a defesa da vida, da natureza, da família.

A Igreja está reconquistando espaço entre os jovens? Ou este espaço nunca foi perdido?
Acho que não é mais uma conquista. Estes jovens já têm uma caminhada dentro da Igreja. O fato de o papa se encontrar com eles é uma forma do pastor ir ao encontro da base, dessa força bonita que é a força jovem.

Os padres mais novos estão deixando de lado o conservadorismo para chegar mais próximos dos jovens, falar a língua deles?
Eu interpreto como conservador o distanciamento que a igreja teve das pessoas por um bom tempo. O padre era algo inacessível. Hoje ele fala mais a linguagem das pessoas, está mais próximo da vida delas. Se no passado o padre fazia quase tudo na igreja, hoje ele conta com a ajuda de muitas pessoas na catequese, na comunhão, na pastoral familiar. Por isso eu não vejo como perda de espaço, mais sim como ganho.

A juventude sabe diferenciar o fato de ser católico e praticar o catolicismo?
Ter fé não é só crer, é aderir àquilo que você crê. Eu diria que não é um problema de jovens, mas das pessoas de um modo geral. Elas querem a religião para aquilo que lhes convêm, porque precisam de paz, porque enfrentam problemas de doença, situação financeira difícil. Procuram a religião para resolver seus problemas, mas na hora de se comprometer, de ajudar quem precisa, de vivenciar os valores, tiram o corpo fora.

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