Estado espetáculo
Fernando José Dias da Silva
Numa série de conferências sobre ‘‘Marketing Político’’, o marketólogo de Bill Clinton, Rick Ridder, afirmou que o voto está em 100º lugar na lista de prioridades do cidadão médio norte-americano. Por isso as campanhas eleitorais tem de ser curtas para não cansar o eleitor.
Na mesma série de conferências, Chico Santarita, que já fez uma centena de campanhas políticas pelo Brasil, explicou que acha inconveniente um candidato eleger como prioridade o desemprego. Na avaliação de Santarita esse vai ser um assunto comum, todo mundo vai falar do desemprego, e para se destacar o candidato precisa encontrar um outro mote. E o que tem a ver essas duas opiniões com os saques nas regiões dizimadas pela seca no Nordeste? Tem mais a ver do que supõe a vã filosofia.
A política tradicional está preocupada em não cansar o eleitor. Buscar coisas novas para entretê-lo. Arrumar mágicas novas. Saltos e cambalhotas mais espetaculares para conquistar o eleitor incauto. Na verdade, despolitizar a política para transformá-la em grande promotora do evento ‘‘Estado Espetáculo’’.
Aí começa aquela história de que política é coisa chata, os políticos não valem nada e é preciso ‘‘acabar com isso que esta a풒. Perfeito. Mas qual é a alternativa? A alternativa é essa que está nas barbas de todo mundo - são os saques. São os governos paralelos montados pelos traficantes nos morros do Rio de Janeiro. É a empatia do crime organizado que faz operações espetaculares para tirar os seus chefes da cadeia. É o descaso dos chamados donos do poder com os problemas mínimos da sociedade, como Saúde e Educação.
Está surgindo com muita rapidez um extrapoder que está ocupando os espaços vazios deixados pelas instituições que deveriam cuidar do encaminhamento democrático da vida nacional. Segundo José Bernardo Toro, que é diretor-geral dos Projetos Nacionais da Fundação Social de Bogotá, na Colômbia, a máxima expressão de participação é a possibilidade de criar a ordem em que se quer viver: poder fundar para si mesmo (autofundar) as normas e leis que se quer cumprir para a dignidade de todos. ‘‘E talvez seja esse o principal problema da política tradicional brasileira, que nunca acompanhou a dinâmica dos acontecimentos reais. Tende habitualmente a ficar atada à ficção que se desenrola em Brasília.
O problema não é privilégio da situação. É agora que a oposição revela as suas dificuldades de forma mais dramática. Ela foi esmagada, o PT sofre um processo de autocanibalização, os sindicatos adotam o pragmatismo dos resultados e a classe média caminha mansa para a extinção. Um panorama desses permite o surgimento do MST. Um partido político extraparlamentar que aposta todas as usa fichas no radicalismo, não importa a que preço.
A ousadia do MST, chamando a imprensa para documentar os saques organizados por eles, só pode ser possível mesmo para quem mandou as favas qualquer comprometimento com as normas ditadas pelas Instituições. O objetivo do MST é claro mesmo para quem defende as suas práticas. É desestabilizar o presidente Fernando Henrique, transformando-o naquele que não conseguiu segurar a agitação no Nordeste ou então no insensível que mandou reprimir o confronto que ainda está por vir. Fernando Henrique parece que não entendeu a gravidade da hora. Ele fica dizendo que é caro levar comida para as regiões da seca, aí não dá.
FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo

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