Estado e religião - Hélio Doyle
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 01 de dezembro de 1998
Hélio Doyle 
Não, o assunto não é Pinochet. Não tive como resistir a tratar de outro tema, aparentemente banal diante de tanta coisa importante que acontece no mundo. O assunto banal, porém seguramente delicado e polêmico, é o feriado que tivemos na segunda-feira, 30 de novembro: o Dia do Evangélico. Brasília ficou praticamente parada porque um deputado evangélico apresentou, a Câmara Legislativa aprovou e o governador sancionou um projeto criando esse feriado distrital referendado pelo presidente da República.
Nenhuma surpresa. A força dos evangélicos é muito grande em Brasília, todos os que dependem de eleições morrem de medo de desagradá-los. Seus votos são disputadíssimos por políticos de todos os matizes. Há dois aspectos, porém, que devem ser lembrados. O primeiro, é a relação entre o Estado e as religiões. O segundo, que tipo de conchavo político leva a que se aprove um feriado.
No Brasil, o Estado está separado da religião. Felizmente, não há uma religião oficial e é plena a liberdade de culto. Mas a todo momento o que vemos é a negação disso. Como a religião católica apostólica romana sempre foi e e é predominante, sua hierarquia com frequência arvora-se a interferir nos negócios do Estado e procura impor ao conjunto da população - evangélicos, espíritas, budistas, muçulmanos, judeus, ateus, agnósticos, sem religião etc. - suas doutrinas e práticas.
Os políticos, porque são católicos (ainda que só de batismo), para evitar brigas indigestas que tiram votos, ou por tradição, aceitam isso. A maioria, pelo menos. Conheço um governador que não acreditava em Deus e nem entrava em igreja - a não ser para missas de 7º dia e casamentos - até ser candidato. Hoje, é fiel fervoroso.
Evangélicos, com razão, protestam e argumentam que há diversos feriados religiosos católicos em nosso calendário. Nos Estados e cidades, pára-se tudo para festejar o santo padroeiro, por exemplo. Por que não, então, feriados de outras religiões?
Certo, mas errado. Não tem é de haver feriados religiosos, salvo algumas exceções inevitáveis e bem-vindas profundamente incorporadas aos nossos costumes, como o Natal ou até a Sexta-Feira da Paixão (que é dia de trabalho normal em muitos países). Por que é feriado nacional o dia de Corpus Christi? Ou de Nossa Senhora de Aparecida?
Ou então, que sejam feriados, mas se comemorem no domingo mais próximo. Qual é, sem intransigências e fundamentalismos, o problema de realizar as comemorações litúrgicas no domingo e não exatamente no dia que se convencionou? Mas quem terá coragem de propor isso à Igreja Católica?
No caso específico do Dia do Evangélico, o que houve foi mais uma negociata política. A bancada que se diz de esquerda na Câmara deu apoio ao projeto de um deputado evangélico em troca da aprovação de propostas de interesse do governo que se diz de esquerda. O governador, para cumprir o acordo e temeroso de se incompatibilizar com os evangélicos, sancionou o projeto apesar de pareceres contrários de assessores. Ninguém teve o bom senso sequer de propor que o feriado fosse comemorado no último domingo de novembro, por exemplo.
Se tiverem lobby e votos suficientes, os seguidores de outras religiões podem reivindicar também os seus dias.
- HÉLIO DOYLE é jornalista em Brasília


