Acredito que poucos brasileiros são contra a Copa do Mundo. Talvez, eles sejam contra o fato de os mandatários subestimarem os benefícios e omitirem os prejuízos das obras.
Tenho três filhos nascidos em Manaus (AM), e muito carinho por aquela cidade. Mas, na minha última viagem, vi na cidade uma ponte de 3.595 m2 que teve um custo na época (2011), de R$ 1,099 milhão. Ponte moderna, maravilhosa que liga Manaus a lugar nenhum. Está em direção oeste sobre o Rio Negro, mirando 1.200 quilômetros de mata virgem.
Manaus era cândida e alegre, cresceu 382% em 40 anos, sem planejamento urbano, assim como a maioria das cidades brasileiras, e sua população saltou de 400 mil habitantes para mais de 2 milhões. Bairros são resultado de invasões, não fugindo às regras do país. O trânsito é caótico, como no Rio. Transporte coletivo ineficiente e caro. Os riachos que cortam a cidade são poluídos como os de São Paulo e 6,2% da população vivem em extrema pobreza, assim como no Nordeste.
Somente 12% da população possui acesso à rede de esgoto e 1 da cidade não tem abastecimento regular de água potável. Sem falar das doenças endêmicas das regiões tropicais, como malária, leishmaniose e dengue. Dentro do exposto, pergunta-se. Essa ponte era prioridade?
Os estádios bilionários construídos no País, onde se gastou bilhões, não têm uma realidade diferente da ponte de Manaus. Qual será o uso das grandes arenas de Manaus, Cuiabá e Brasília, depois da Copa? Sabemos que não existem lá, times de futebol que justifiquem o empreendimento.
Não seria mais prudente ter investido esse dinheiro enorme em obras de infraestrutura (transporte, saúde, educação)? Porque o Brasil como um todo, não é diferente de Manaus, e é bem possível que com essas obras, a Copa se tornaria mais atraente, teria mais fluidez, seria mais viável com menor número de problemas. Pensou-se nos estádios, mas não em como se chegar lá - transporte, comunicação, proteção.
Uma Copa com 32 seleções poderia ser feita com uma reforma honesta nos estádios que já temos. Apenas se justificariam dois estádios: um perto dos corintianos e outro ao redor dos flamenguistas. Estes iriam a qualquer jogo. Não são times, são religiões e sobre religião não tenho conhecimento para discutir.
Caso a Fifa não concordasse, melhor seria que ela explodisse. Teríamos que pensar em primeiro lugar no nosso povo que viaja horas em condições sub-humanas para chegar ao trabalho, fica dias em filas esperando atendimento hospitalar, não tem saneamento, e muitos não têm comida.
A maioria quer a Copa, mas dentro da nossa realidade. Hoje temos estádios com padrão da Escandinávia, mas com infraestrutura da África.
Às vezes, o Brasil parece tão incoerente como um curandeiro tomando antibiótico. As coisas aqui acontecem de forma tão rápida, que nos confundem. Nem vemos que o maior problema é que os idealizadores responsáveis desses grandes eventos não se envergonham .
Na incoerência do nosso ser, somos a soma da razão distorcida. Preocupamo-nos tanto com um avião desaparecido da Malásia no qual morreram 236 passageiros, mas pouco pensamos nos 136 assassinatos diários que acontecem no Brasil .
Que fique claro que não sou contra a Copa e acredito que a maioria do Brasil também não é. Mas como um dos países que têm mais ministérios do mundo, não teria uma única pessoa com poder de opinar e dizer: vamos diminuir o tamanho do erro?
Poderíamos não curar o país, mas jogaríamos uma gota de água, nessa fogueira de vaidades, nesse filme de tragédia pela qual passamos neste exato momento.
Na verdade, às vezes, parecemos um ajuntamento de gente à vontade do mais forte e, acreditem, nem é esse o nosso problema maior.

NELIO REIS é professor universitário em Londrina



■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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