Está na hora de um gol de placa
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 18 de agosto de 1997
Álvaro Dias 
Foi uma demonstração explícita de que, no futebol, os interesses pessoais estão acima do interesse coletivo. A ameaça do presidente da FIFA de excluir o Brasil da Copa do Mundo se o Congresso aprovar o anteprojeto de lei elaborado por Pelé tem diversos aspectos: constitui uma afronta ao Congresso, levanta dúvidas sobre certos interesses, ofende a todos os brasileiros e, o que é pior, pretende manter um status quo que todos sabemos viciado.
O que pretende o projeto do ministro dos Esportes? Simplesmente melhorar a situação do futebol. Ninguém ignora que, hoje, o futebol é, não apenas um esporte, mas um grande negócio a envolver milhões de dólares. Exatamente por isso, ninguém desconhece que não é um setor imune à praga da corrupção. Basta olharmos para os fatos que andaram abalando o futebol brasileiro nos últimos tempos, até o mais recente escândalo do apito. Logo, está coberto de razão o ministro ao propor fórmulas para tornar o nosso futebol mais moderno, mais eficiente e, principalmente, mais transparente e ético.
A nova lei pretende incentivar a transformação dos clubes de futebol em empresas que poderão gozar de incentivos fiscais, mas ao mesmo tempo estarão sujeitas à fiscalização do Poder Público sobre suas contas. Os dirigentes, ao invés da habitual impunidade, responderão civil e criminalmente por sua administração. Os jogadores terão liberdade para dispor de seus passes e deixarão de ser escravos atados a cláusulas de passe draconianas. Os árbitros poderão constituir ligas ou empresas independentes que passarão a ser contratadas. Finalmente, o que é muito importante, a Justiça esportiva será composta de modo mais transparente e gozará de autonomia em relação à CBF e às federações estaduais. Enfim, nada do que está no projeto conflita com os estatutos da FIFA e muito menos com o desejo daqueles que querem um futebol mais ágil, moderno e limpo, livre das estruturas viciadas. Sobre ele, o jurista Antonio Carlos Biscaia afirmou ser uma resposta moralizadora e (que) não é inconstitucional. O objetivo é coibir abusos. A CBF, federações e clubes fazem negociações milionárias e não prestam contas.
O anteprojeto deverá passar pelo Congresso. É preciso que com ele não se faça o que foi feito com a Lei Zico, cujo objetivo original foi desvirtuado completamente, tornando-se meramente a Lei do Bingo, que em nada beneficia os clubes, mas enriqueceu muitos espertalhões. A lei proposta pelo ministro Pelé é uma evolução que se faz necessária. No entanto, em sua tramitação pelo Congresso, é fundamental que os parlamentares não circunscrevam as discussões a uns poucos privilegiados, mas abram amplo debate sobre o assunto e ouçam, com especial atenção, os principais interessados: os jogadores. Por outro lado, para que isto aconteça, é preciso que eles se mobilizem, se organizem e façam ouvir sua voz; caso contrário, ficarão mantidos à margem e muitos continuarão a ser apenas ex-famosos, sem um futuro garantido.
A ameaça do presidente da FIFA é ridícula e, além disto, descabida. Talvez seja mais fácil que ele saia da FIFA do que o Brasil deixar a Copa do Mundo! Mas creio que tudo isto não passa de uma tentativa (inútil) de impedir que se adotem as medidas que se fazem necessárias para impedir que o nosso futebol continue a cair. Chegamos num ponto tal que atitudes firmes são inadiáveis. A corrupção, a violência, as maracutaias têm afastado o público dos estádios e têm colocado o futebol nas páginas policiais. Esta é a hora da reação de quem quer um futebol bonito, vibrante e, principalmente, popular. Oxalá o Congresso Nacional com sua sensibilidade, ajude o Brasil a marcar um gol de placa para o nosso futebol!


