Esses anos loucos
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de agosto de 2002
Rubem Azevedo Lima 
A especulação, que explora erros das incoerências e das políticas do governo, corrói nossa economia. FHC diz-se tranquilo, mas revela que seu sucessor, queira ou não, está preso ao FMI, e que ele pedirá, hoje, responsabilidade aos presidenciáveis. Dá para entender? Os ventos de Agosto espalham pânico e insanidade no Brasil.
Na verdade, FHC quer um arreglo com quatro dos seis presidenciáveis: Lula, Ciro e Garotinho (da oposição) e Serra (governista). Ignora-se por que motivo ele esqueceu os candidatos da extrema esquerda, José Maria, do PSTU, e Rui Pimenta, da Causa Operária. A reunião não é para exame da crise do País? Ninguém, portanto, devia ser discriminado em função de suas idéias. Tanto mais que esse preconceito explícito de FHC é uma razão forte para o eleitor reagir e votar num deles.
Discriminações ideológicas à parte, FHC talvez tenha pouco a dizer a seus convidados. Ele devia desculpar-se ao mostrar-lhes a entalada em que pôs o País, por aderir ao neoliberalismo da Thatcher, ex-primeira ministra britânica, e de Reagan, ex-presidente dos EUA, até deixar-nos como revelou na total dependência do FMI.
Foi uma opção ruim para FHC e pior para os brasileiros. Nosso príncipe dos sociólogos devia desconfiar de si mesmo ao fazê-la e transformar-se, em termos, ''honni soit qui mal y pense'' num clone de Salinas de Gortari, ex-presidente mexicano, tão louvado pela mídia neoliberal, hoje, porém, foragido alhures.
FHC desfez-se do verniz socialista e perfilou-se aos dinossauros, estes, sim, de nosso neoliberalismo, a quem tanto criticara. Tal mudança foi mais que um curto-circuito de lucidez, como o de agora, ao discriminar interlocutores, para explicar a quem ainda ignora o que é governar como nos endividou inutilmente. Não seria o caso de ampliar tais reuniões, para torná-las menos improdutivas?
Nos EUA, os democratas pedem que Bush saia do gueto republicano e ouça o ex-presidente Clinton, de quem recebeu o País próspero e o destrói, por isolar-se entre cupinchas. Quanto a FHC, caso fale só a quem aceita suas regras, deve ficar, por temperamento, mais tentado a convencer do que aceitar ser convencido, como exige a dimensão de seus erros. Nesse caso, serão inúteis as suas conversas.
Convidar os ex-presidentes Itamar e Sarney para tais reuniões seria mais que um ato de humildade. Seria um sinal de bom senso político, não-eleitoreiro, capaz de nos ajudar a superar os altos e baixos desses anos loucos e a tentar devolver ao Brasil à soberania perdida para nos desenvolvermos em paz e com justiça social.


