Repeti várias vezes a fórmula: há cidadãos brasileiros que deveriam render graças às potestades do universo por nós termos tido também a nossa ditadura militar. Alguns deles, graças a ela, são deputados, senadores, prefeitos, figuras de destaque no cenário nacional. É que naqueles nebulosos, conturbados e nefastos tempos eles levaram alguns tapinhas na orelha, alguma cacetada nas nádegas, alguns achaques de cachorro, coisinhas de quase nada. Dessas coisinhas pequenininhas nasceram entusiásticos e nacionalistas discursos em palanques, em assembléias, em congressos, eventos, seminários, debates, entrevistas e muito mais, nesse universo por onde circulam os enfadonhos, desgastados e desencontrados caminhos brasileiros. Saudades do Darcy Ribeiro.
Não abri ainda os alforges desses grandes irmãos que alcançaram o paraíso terrestre graças à participação nos movimentos estudantis das décadas de 60 a 70. Eu fico com vergonha só de lembrar da minha participação no movimento estudantil no final dos anos 70, em Ijuí (RS). Não conseguiria balbuciar algumas palavras. Eu caminhava pela periferia do movimento. Aqueles jovens pareciam mais uma turma de salteadores que faziam aquilo por não ter mais nada a fazer. O belo brilho da lua insistia em iluminar seus empoeirados e tortuosos caminhos. Cegos, eles insistiam na mesma tecla. Qualquer descuido, não a encontrariam mais.
A nossa professora do primário, Edviges, ensinava a ler, a escrever e a contar. Declamávamos poesias, cantávamos, fazíamos provas terríveis. Havia muito silêncio e respeito na sala. Nós fazíamos todos os deveres. Lutávamos bravamente por uma boa nota. A gente queria saber, descobrir as coisas, ser inteligentes como era a nossa professora. Aprendíamos quase só a respeito das coisas boas do mundo. Não havia violência, estupro, fome, favelas, negros x brancos, baixos salários, injustiças sociais, péssimos governantes, desvios de verbas etc. Nós descobrimos isso no devido tempo. Mas aí, a gente já tinha algumas condições de se virar, de fazer uma escolha. Nem imaginávamos que a professora do primário foi preparando a gente para esses novos tempos.
Até um determinado tempo de nossa vida, acreditamos na revolução, na conscientização, na formação de cidadãos conscientes e críticos. Conforme fomos convivendo com aqueles do primeiro e do segundo parágrafos, fomos desistindo, fomos nos afastando dos grandes ideais humanos: o egoísmo e a hipocrisia. O conhecimento e a cultura sadia não virão a nós se estivermos acompanhados de mercenários e sanguessuas.
Quando mais jovem, eu perguntava a respeito de quem teria posto este medo em mim. Eu ficava realmente com medo. Eu tinha nojo desses que gritavam, berravam e esperneavam porque tinham participado do movimento estudantil. Não consigo ver relação, intimidade nenhuma entre esses caras-pintadas dos anos 90 e os jovens sonhadores e românticos dos anos 60. Muitos insistem tanto nisso. Será que eu estou por fora da coisa?
E onde estão aqueles que tanto difamaram a gramática, cunhando-a de conservadora, reacionária, autoritária, ultrapassada? Aqueles que tanto pregavam a ‘‘prática da leitura e da produção de textos’’? Aqueles das conferências? Das dicas de como bem trabalhar a língua portuguesa? Em que gabinete de que academia se encastelaram? Por que eles não vêm em socorro dessa escola progressista que geraram e que não aguenta mais tanto desrespeito e tanta indisciplina?
- ILDO CARBONERA é professor universitário em Foz do Iguaçu

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