Na conferência feita no salão nobre da Escola de Ciências Econômica e Política de Londres, Fernando Henrique pregou a democracia radical e os desafios que se apresentam para a implantação dessa tal democracia. Como sempre acontece nessas ocasiões o presidente foi claro, didático e buscou a síntese.
Disse que os países em desenvolvimento, além de enfrentarem os novos limites para o esforço de inclusão social, partem de uma situação de ‘‘mal estar social’’ agravada pela sensação de que a prosperidade é dos outros no seu próprio País ou no exterior. Isso por causa do avanço nas técnicas de comunicação e transporte e o próprio processo de urbanização que tornam facilmente acessíveis a todos um volume muito grande de informações. É a velha idéia de espiar pela janela, do lado de fora, enquanto a festa rola solta.
Fernando Henrique, na sua palestra, afirmou que é preciso incluir todos na democracia radical e a chave é a idéia de que o Estado sirva efetivamente ao ‘‘todo’’ da cidadania. Mas talvez o mais importante, principalmente depois da crise financeira, tenha sido o alerta do presidente para que se encontrem fórmulas para responder aos desafios que o processo de globalização apresenta para a democracia e para o comando do Estado de seu próprio destino.
Esse é um problemão porque, ao que parece, as economias periféricas parecem que apostam uma corrida de obstáculos para se credenciarem junto aos ‘‘analistas de riscos’’ das grandes empresas de consultoria financeira do mundo como as de maior credibilidade e de maior tranquilidade e assim tentarem conseguir uma fatia do capital globalizado que gira pelos computadores.
Para alguns críticos do sistema globalizado atual, o processo provocou uma concentração sem precedentes de poder do conhecimento e da riqueza em mãos de um limitadíssimo número de empresas e bancos globais, os grandes responsáveis pelas decisões de alocação e desalocação de recursos produtivos e, mais ainda, financeiros.
Nesse sentido, a globalização é uma realidade política, cultural e econômica que vai nascendo pelas costas dos produtores e dos governos, mas é também o resultado de decisões políticas e econômicas tomadas de forma cada vez mais concentrada por alguns oligopólios, alguns bancos globais e alguns poucos governos nacionais.
Esses mesmos críticos acham que tudo isso leva a uma ‘‘desconexão’’ da economia cujo exemplo mais citado é a alta nas bolsas, de ações de empresas que anunciam que vão demitir milhares de empregados.
O presidente Fernando Henrique, na sua conferência, disse que a interdependência entre os Estados é um fato e ignorá-lo seria condenar nossos esforços, desde logo, ao reino da fantasia. ‘‘Mas isso não nos exime de examinar a questão de saber o que é possível e necessário regulamentar, no plano internacional, para que a vontade do cidadão possa ser democraticamente exercida’’.
O que quer dizer mais ou menos assim: globalização sim, mas devagar com o andor.
FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo

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