Esquizofrenia econômica
PUBLICAÇÃO
domingo, 09 de março de 2003
Nivaldo Cordeiro 
A seção ''Painel'', da Folha de São Paulo de ontem, deu conta do seguinte: ''O Planalto prepara um pacote de linhas de crédito de pelo menos R$ 2 bi (sic), a serem liberados pelos bancos oficiais (Banco do Brasil, BNDES, e Caixa) a pequenas e médias empresas. É mais uma tentativa do governo de gerar boas notícias em meio à crise econômica a fim de tentar preservar a popularidade de Lula''.
O mesmo governo que plantou essa notinha é o que na semana passada elevou drasticamente o recolhimento compulsório sobre os depósitos bancários à vista, o que significa retirar a capacidade dos bancos, oficiais e privados, de emprestarem recursos para as atividades produtivas e para o consumo. E, de quebra, determina, pela escassez artificial de dinheiro, elevação abrupta na taxa de juros, induzindo a economia a uma recessão, o que significa desemprego, quebra de empresas e perda de capacidade de consumo da população, pela ausência de crédito. Juros caros inibem o investimento das empresas e também a antecipação de compras pelo consumidor.
Agora, esse mesmo governo tenta fazer o movimento inverso, utilizando os bancos oficiais? É não apenas ridículo, é irracional. É querer estancar rompimento de artéria usando band-aid. Só um perfeito idiota para mudar a opinião sobre a mediocridade desse governo a partir dessas medidas estúpidas. A única coisa de coerente que sobra na notícia é a tentativa de fazer dos tentáculos bancários do ogro estatal a suposta alavanca para superar os problemas econômicos. Jamais poderia dar certo.
Essa visão burocrática de que se pode ativar a economia pela maior oferta de crédito oficial é falsa e maliciosa. Serve apenas para alimentar os jornalistas ''in'' (aqueles de cérebros barbudos) de falsas notícias. Se o governo quisesse mesmo alavancar o processo de desenvolvimento deveria mesmo era reduzir a carga tributária, injeção direta na veia tanto dos consumidores como dos produtores. A tradição brasileira é a de que o desenvolvimento de novos projetos é financiado, prioritariamente, por retenção de LUCROS (assim, em caixa alta, para escandalizar os comunas, como fazia o saudoso Eugênio Gudin).
A contradição real na nossa economia é entre, de um lado, os impostos massacrantes e, do outro, salários baixos e lucros aviltados. Como os governantes petistas, por razões doutrinárias, não reduzirão os impostos, não há como ter a retomada do desenvolvimento. É simples assim. E, é bom lembrar, a partir de um certo patamar imposto não passa de roubo oficial. Sábado, por exemplo, recebi o carnê do IPTU da Dona Marta, mais de três vezes superior ao valor que paguei no ano passado. E não disseram que o teto seria de 25% de aumento sobre o ano anterior? Pois sim, a palavra que sai da boca dos petistas quase sempre é mentira pura e simples, especialmente quando se trata de tributos. Só não aceito que os eleitores petistas amigos meus, a quem avisei que Maluf sairia mais barato do que a Dona Marta, reclamem do IPTU. Não foi por falta de aviso. Que paguem sem reclamar!
Nivaldo Cordeiro é economista e mestre em Administração de Empresas pela FGV-SP


