Primeiro, há de se perguntar: o quê, onde estão e quem integram as esquerdas brasileiras? Guiam-se pelo repertório clássico do socialismo, são sociais-democratas disfarçados, que pregam a economia de mercado submetida ao controle social, por meio de um Estado democrático, ou apenas se equivalem aos motoristas ingleses, que para nós dirigem na contramão? A questão é que o rótulo está sendo usado a torto e a direito, mesclando perfis, amalgamando interesses, como se fosse possível extrair um caldo coerente das panelas de Lula, Brizola, Ciro, Arraes, Erundina, Requião, Roberto Freire, Paes de Andrade, Quércia, Tarso Genro, Sarney e Itamar.
A conhecida incompetência da esquerda brasileira começa exatamente pela carência de identidade: ela não sabe o que é. Há, sabe-se, nomes de expressão, como Roberto Freire e Tarso Genro, densos e preparados, capazes de formulações teóricas sofisticadas sobre a esquerda e com uma visão moderna e abrangente das questões nacionais. Mas o corte partidário que os separa é mais forte que a identificação doutrinária que poderia uni-los, tornando, assim, praticamente impossível uma aliança entre seus nomes. Nesse caso, a fragmentação de interesses, as vaidades, as visões paroquialistas, os feudos regionais e as disputas partidárias.
Seria mais correto chamá-los de oposicionistas? Mesmo assim, ficariam devendo respostas: oposição a quem e a quê? A Fernando Henrique ou ao Plano Real? Que projeto têm para o país? Ora, dizer que o Plano Real precisa ser aperfeiçoado a fim de alavancar as estratégias de desenvolvimento, de geração de emprego, de empuxo de investimentos, de melhoria dos serviços sociais básicos, não é suficiente para tirar da cadeira o atual presidente da República. Afinal de contas, FHC, um sociólogo bem equipado, é o primeiro a se dar conta do esgotamento do primeiro ciclo do Real. Ele sabe que o plano bateu no teto. Se for para o embate com algum deles, vai constatar esse fato com a vantagem de exibir resultados até o momento.
A verdade é que as chamadas oposições não têm discurso. Giram em torno de seus perfis, de suas histórias pessoais, de seu passado. São competentes numa única coisa: sabem fazer barulho. Movimentam-se, promovem reuniões, batem fotos para a imprensa, dizem e se desdizem, criam as marolas que interessam a uma mídia faminta por contrapontos. Ciro Gomes tipifica a situação. Num primeiro momento, surge como candidato para preencher um buraco na área esquerda do arco ideológico. Poderia articular um discurso endereçado aos segmentos médios, interessados em energizar um cotidiano modorrento e saturado. O que faz ele? Corre de um lado para outro, oferecendo o cargo de vice ou mesmo a cabeça da chapa numa aliança interpartidária. Ou seja, o homem não está seguro de sua candidatura. Mostra-se inquieto e insatisfeito no pilar a que foi alçado.
Percebendo o incômodo a que será submetido, nos próximos meses, com as pressões sobre sua estática posição no ranking - ficará patinando nos mesmo índices - Lula, afinal, despertou. Sinaliza com a hipótese de abandonar a candidatura em prol de um nome, como Tarso Genro, mais vitaminado e com luz própria e brilhante na escuridão que bloqueia o PT. O ex-prefeito de Porto Alegre teria condições de se apresentar como o fato novo da política brasileira, por sua boa perfomance administrativa, o preparo, o equilíbrio, a respeitabilidade. Enfrenta um problema: não é muito conhecido e tem um perfil regionalista. Uma campanha nacional lhe daria a visibilidade necessária para crescer nos índices. Se o PT, é claro, deixar, pois é sabido que grandes parcelas do partido trabalham com a idéia de esfacelamento, dispersão e divisão, para que do caos nasça uma nova estrela.
Os restante têm vôo curto. O cheiro do tempo lhes dirá que seu perfume não mais atiça o olfato.

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