Paulo Ferreira Muniz
Apesar das dificuldades de equilíbrio de caixa, que determinam atitudes drásticas como esta última, de tirar do social os recursos para a desvinculação das receitas da União, o governo Fernando Henrique tem demonstrando esforço em acertar, de forma que, numa análise desapaixonada e fria, pode-se contabilizar mais acertos do que erros de forma geral. Na ponta final, os erros estão sendo ajustados para acertos.
O ponto mais positivo do governo FHC vem sendo a transparência de esforço em suas atitudes, e com elas a inequívoca manutenção da ordem democrática constituída – fator que, por si só, alavanca as perspectivas do desenvolvimento pela via da atração dos capitais de fora e do estímulo ao incremento dos investimentos nacionais. O equilíbrio democrático tem sido referência para o investidor ter como ponto de partida de sua análise de conveniência de aplicação do seu capital e dos seus projetos.
A manifestação de interesse por investimentos no Brasil se dá por diferentes segmentos, de A a Z numa escala econômica, por uma avalanche de empresas de fora, o que reconhecemos como necessário e de vital importância no processo competitivo. Notadamente, em um momento que o País passa por importante processo de privatizações, em que a pluralidade de interessados é determinante para um bom resultado.
Dentro do universo de empresas que estão se deslocando para cá, muitas optam pelo Brasil devido ao seu importante mercado consumidor que, partindo daqui, configura-se uma eficiente logística frente aos países do Mercosul. Isto vem ocorrendo com maior frequência com as empresas do bloco do Mercosul, as quais invertem o caminho dos seus negócios, por uma série de razões, mas, principalmente pela competitiva política cambial aqui exercida, sem desprezar a importância do mercado interno brasileiro.
Sem porteiras, o mundo se transforma num mosaico de países colados entre si, respirando o mesmo ar, buscando as melhores adaptações, no objetivo de comercializar o que fabricam e dispor ao seu consumidor imediatamente, entendendo que a posição do cliente está ao alcance da mão – apenas do outro lado do balcão.
Tivemos casos recentes de empresas se deslocando da Argentina para o Brasil, como é o caso da Alpargatas, maior fabricante naquele país do setor têxtil e calçadista, que emprega 6 mil trabalhadores. A Alpargatas vai transferir parte de suas instalações fabris para Curitiba e São Paulo. A indústria de cigarros Massalim, a fábrica de lâmpadas da Philips, a Iveco (da Fiat), que fabrica veículos utilitários, e tantas outras do setor de autopeças, estão com um pé no Brasil, vindas da Argentina.
Está acontecendo alguma coisa. E boa para o Brasil, pois se considerarmos que estamos fracos na oferta de empregos – entre os três piores no mundo – a abertura de empresas significa que podemos reverter esta triste posição. Emprego para todos.
É o que procura fazer, por exemplo, o governador do Paraná, Jaime Lerner. Direto de Paris, na última quarta-feira, ele mandou dizer, avalizado por industriais franceses, que a montadora Renault, que já funciona no Paraná, está carreando para o Estado mais US$ 100 milhões para uma nova unidade, dentro dos US$ 1 bilhão que investirá no âmbito do Mercosul.
Estas informações servem para indicar mercado a ser prospectado pelas empresas de desenvolvimento industrial de todo o País, como a nossa Codel, de Londrina. Todos devem estar atentos para as oportunidades, e confiar que o País pode ser sacudido pelo desenvolvimento e pela geração de riquezas para todos. Por isso o nosso entusiasmo.
No campo das privatizações, o trabalho do governo federal também vai bem e indica que neste ano serão privatizadas 27 companhias de saneamento básico estaduais, segundo informou Francisco Perroni, do BNDES. E com uma observação importante: como critério de escolha, além do maior lance, será privilegiada a empresa participante que indicar maiores volumes de investimentos futuros. É disso que o Brasil precisa.
Nesta área, se por um lado estes investimentos irão contemplar questões de saúde pública, ambientais e de preservação de recursos hídricos, por outro lado a implementação de obras de infra-estrutura irá empregar milhares de trabalhadores, justamente aqueles com o mínimo de qualificação.
A clareza da regra para a privatização das companhias de saneamento é importante, para não termos dificuldades e embates na Justiça como o que vemos no caso das concessões de rodovias no Paraná – que, aliás, só exploram, na expressão exata da palavra.
Esta disposição se confirma na palavra do presidente do BNDES, Andrea Calabi, em reconhecer que a indústria nacional do segmento não vinha recebendo a atenção necessária do banco de fomento, mas que essa visão já foi superada e o banco volta a sua atenção de forma prioritária, propondo mais financiamentos para a empresa nacional.
Por aí, vamos aprendendo. É claro que manteremos para sempre em nossa lembrança os equívocos cometidos no Plano Real na manutenção da paridade cambial, da política de juros altos, da recessão, de importações desnecessárias e facilitadas pela política cambial. Esse conjunto perverso de fatores levou à instabilidade milhares de empresas brasileiras injustamente.
Hoje, no entanto, estamos vivendo um novo limiar, um tempo de grandes investimentos e excelente disposição, que pode começar a sepultar a velha idéia de que economia brasileira só começa a se movimentar depois do Carnaval. Estamos esquentando os tamborins para a grande virada econômica que o nosso País merece e que devemos fazer por ele.