Que o exemplo dessas corajosas mulheres sirva para refletirmos sobre o real significado de conceitos como liberdade e democracia
A trajetória das mulheres nas lutas sociais é marcada por manifestações de determinação, coragem e solidariedade. Desde o início do século XX elas vêm se organizando contra as exaustivas jornadas, as péssimas condições de trabalho e os maus-tratos que refletem diretamente na condição de saúde, os baixos salários e a discriminação de gênero na esfera trabalhista.
Mas as mulheres não lutaram apenas pelos seus direitos e nem tampouco, apenas nas questões referentes ao trabalho. Elas lutaram em várias frentes por uma sociedade mais justa onde o acesso às oportunidades de crescimento pessoal e de uma vida digna sejam asseguradas a homens e mulheres. Um bom exemplo disso foi a organização das mulheres brasileiras em torno da luta pela defesa de seus companheiros e filhos(as) durante a ditadura militar no Movimento pela Anistia, o qual teve como presidente a ilustre Terezinha Zerbine, bem como das mulheres argentinas na trajetória das ‘‘Mães da Praça de Maio’’. As mulheres lutaram também pela redemocratização do País, encabeçaram o movimento contra a carestia, e tiveram um papel decisivo na elaboração da Constituição Brasileira de 1988.
Hoje, mais uma vez, as mulheres mostram sua força e sua solidariedade, perante as injustiças sociais que afetam seus companheiros. Acampadas desde às 6 horas da terça-feira, em frente ao 5º Batalhão da Polícia Militar de Londrina, elas enfrentaram chuva e frio, adiaram seus compromissos e afazeres, carregaram seus filhos, mobilizaram as companheiras, sensibilizaram a sociedade e, sobretudo, desafiaram autoridades.
Novamente a luta é pela valorização do trabalhador e da trabalhadora, por dignidade e respeito a uma categoria, que como tantas outras, sofre as consequências de uma política econômica que menospreza os trabalhadores, refletindo em significativas perdas em termos de salários, condições de trabalho e direitos legalmente garantidos.
O movimento organizado pela Associação de Esposas e Policiais Militares de Londrina, ganhou a adesão de inúmeras mulheres e apoio de representantes de diversos segmentos da sociedade civil que se mostraram solidários a essa luta. Reconhecendo a legitimidade desse movimento, que simboliza o esforço feminino para construção de condições de vida mais dignas, onde o valor do trabalho seja realmente respeitado, manifestamos nossa admiração e apoio a todas essas mulheres que, a exemplo de tantas outras, ousaram ir às ruas manifestar sua insatisfação e reivindicar direitos, num exemplo claro de exercício da cidadania.
O momento é propício para refletirmos sobre o significado da cidadania. No contexto dos sistemas democráticos, a participação cidadã, compreende a capacidade dos indivíduos, homens e mulheres, de formular propostas e exigir a garantia de condições para que seus direitos civis, sociais, econômicos e políticos sejam efetivos.
Em outras palavras, homens e mulheres devem usufruir, com liberdade e autonomia, de condições que garantam uma vida em sociedade, livre de qualquer forma de discriminação, coerção, violência e exclusão. Que o exemplo dessas corajosas mulheres sirva para refletirmos sobre o real significado de conceitos como liberdade e democracia.
- LYGIA PUPATTO é secretária Especial da Mulher de Londrina

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