13 de julho de 2001. Após derrotar Toronto, Paris e Istambul, Pequim, a capital chinesa, ganhou o direito de organizar os Jogos Olímpicos de 2008. Da época aos dias atuais, a cidade transformou-se em um verdadeiro canteiro de obras. O desenvolvimento e o capitalismo também se acentuaram, gerando por tabela um aumento nos índices de poluição.

Para o professor do Departamento de Patologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Beny Schmidt, realizar as Olimpíadas em Pequim é uma irresponsabilidade. Na conversa com a reportagem da FOLHA, o médico elenca cuidados e perigos ante o inevitável: a poluição.

O que torna Pequim tão perigosa?
A poluição, que tem efeito deletério na saúde dos atletas, diminuindo seu rendimento esportivo. Definitivamente, Pequim não é a cidade indicada para ser sede de um momento tão especial da vida humana como uma Olimpíada. Quando a gente vê a história dos jogos, como eles nasceram, e um de seus preceitos - trazer saúde para a mente e para o corpo -, notamos que a carta olímpica foi manchada pelo Comitê Olímpico Internacional. Pela avidez ao dinheiro, o COI não respeitou os atletas, dando um exemplo muito ruim à sociedade contemporânea. Em tempos em que o mundo está preocupado em diminuir a emissão de dióxido de carbono e em cuidar melhor do planeta para preservar a espécie humana e os outros animais, o COI deveria dar exemplo.

Mas a China vem fazendo o que pode, não? Suas fábricas e indústrias serão fechadas de 20 de julho a 20 de setembro...
(Risos) Como se o homem pudesse mudar o clima em alguns dias... Não é possível em 60 dias mudar uma realidade construída ao longo de anos. Essa atitude é pior ainda porque eu imagino o que esses industriais programam para após a Olimpíada: ''reverter'' as perdas, com certeza. Coitados dos habitantes de Pequim, que terão um ar mais poluído ainda. Como vivemos num sistema capitalista, o preço vai ser caro.

A quais riscos os atletas estarão expostos?
Um dos riscos que posso elencar é a morte súbita, que se acentua entre atletas asmáticos. No momento em que todos deveriam se preocupar com a alimentação, não tem cabimento a poluição se converter em uma vilã. Os atletas não merecem isso. Eu, que atendo alguns atletas paraolímpicos, me pergunto: se a poluição faz mal para o atleta olímpico, o que dizer dos paraolímpicos? Para eles, os riscos são maiores, pois apresentam a capacidade cardiorespiratória reduzida. Um fundista chegou a dizer que correr na cidade é um ''suicídio''. Eu, se fosse um atleta, não perderia a chance, só que me manifestaria contrário à indicação da cidade.

A China disse que apóia o Brasil como candidato a sediar os Jogos Olímpicos de 2016. O Rio de Janeiro oferece boas condições aos atletas que, caso o Brasil vença, lá compitam?
Sem dúvidas. Não sou especialista em poluição, mas posso dizer, pela minha vivência, que o Rio de Janeiro é uma cidade que oferece condições infinitamente melhores às de Pequim no que se refere à qualidade do ar. Em dias normais, Pequim apresenta duas vezes a poluição de São Paulo em seus piores dias. Não é à toa que as pessoas utilizam máscaras. Até uma criança sabe notar as dificuldades encontradas na capital chinesa. É um axioma.

Diante do óbvio, qual a preparação programada pelo Comitê Olímpico Brasileiro?
Para falar da preparação temos de nos ater à Medicina por inteiro. O COB foi em busca dos melhores profissionais no sentido de proteger nossos atletas, a fim de evitar possíveis contratempos durante a competição. Possivelmente alguns atletas serão medicados para evitar transtornos respiratórios, como surtos de tosse e ataques de asma. A posição do COB é digna de nota.

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