Para muita gente um dos melhores jogadores de vôlei de todos os tempos, Gilberto Amaury de Godoy Filho, Giba, curitibano nascido em Londrina há 38 anos, ataca agora em outras frentes. Desde que largou as quadras, após o vice-campeonato olímpico de 2012, em Londres, o ex-camisa 7 se dedica a projetos direcionados à educação de crianças e jovens por meio do esporte que tanto o consagrou.

O Leões do Vôlei, que ele toca junto com o amigo Emanuel, do vôlei de praia, oferece aulas de voleibol no contraturno escolar em pelo menos 17 colégios de Curitiba. Já o Gibinha tem como foco a formação esportiva e cidadã de crianças de seis a 14 anos por meio da Metodologia Giba 7 de Iniciação ao Voleibol. "Estamos começando a implantá-lo no interior do Estado", afirma o ex-jogador.

O público infanto-juvenil é muito caro a Giba, volta e meia requisitado para dar palestra em escolas e faculdades cujo tema passa sempre pela superação. Ele sabe que virou ídolo e até referência esportiva por ser o ícone da geração mais vitoriosa do voleibol brasileiro. Foi campeão olímpico em 2004 e vice em 2008 e 2012, além de tantos outros títulos em campeonatos e ligas mundiais. Na última quinta-feira à noite, o ex-jogador recebeu a reportagem da FOLHA para uma entrevista exclusiva na Unopar, onde daria a palestra "Lições de Vida" durante evento promovido pela universidade.

Por que você acha que é um bom exemplo de superação no esporte?
Com seis meses eu fui internado com leucemia, tive um acidente no antebraço esquerdo aos 11 anos aqui em Londrina – quase rasguei o braço ao cair de uma árvore brincando de esconde-esconde. Foi no ano que eu comecei a jogar vôlei, mesmo assim não desisti. Depois, quando eu já jogava, em fevereiro de 1993, é uma das coisas que eu falo na palestra, para não desistir, eu fui cortado na peneira do Banespa em fevereiro. Em abril, o Percy Oncken (técnico) me indicou para a seleção infanto-juvenil e no mesmo ano, em setembro, fomos campeões mundiais. Fui eleito o melhor atacante da competição.

E o que o fez pensar que ainda assim você poderia ser um atleta de ponta?
A paixão pelo esporte, eu amava jogar voleibol, seja brincando em casa, aprendendo a dar peixinho no corredor da casa da minha avó. Gostava do que estava fazendo. Tem uma frase do atual presidente da Federação Internacional de Voleibol (FiVB), Ary Graça (quando ainda era presidente da Confederação Brasileira de Vôlei), que diz assim: "Vocês ganharam tudo durante esses últimos 12 anos em função de 70% de profissionalismo e 30% de amadorismo. Vocês amam o que fazem".

Você teve uma outra passagem ruim na sua carreira, que foram o doping e a suspensão por uso de maconha, em 2003. É mais um episódio que pode servir de exemplo às novas gerações?
Se a gente for parar para pensar, fui seis vezes eleito o melhor jogador do mundo. E as seis vezes depois do doping (flagrado em janeiro de 2003). Fui o melhor da Olimpíada um ano depois do doping. O problema existe, depende de como você encara. Encarei de frente, voltei para o Brasil, falei que errei, sou humano, tenho o direito, mas vi o que eu representava de verdade para o País, como aquilo tudo repercutiu na mídia, nas ruas, em todos os lugares, e dali resolvi dar a volta por cima e mais uma vez consegui.

O que a sua geração representou para o País e como você vê o estágio atual da seleção brasileira?
Não dá para fazer um tipo de comparação, porque não estou mais lá dentro. Acho que o Bernardo (Rocha de Rezende, técnico da seleção) fez uma coisa muito legal, que foi a mudança de geração quando essa nova geração ainda não estava pronta. Ele pegou a geração do Bruninho, Sidão, Lucão, Eder, todo esse pessoal, e colocou para treinar junto com a gente. Eles pegaram a nossa experiência e a hora que tiveram que assumir o papel, estão lá. O "não ganhar", posso te dar um exemplo bom. A gente "não ganhou" duas medalhas de prata, a pente "perdeu" as duas últimas Olimpíadas. É triste esse pensamento, ao mesmo tempo a gente tem a geração do Bernard, Renan, que é conhecida como a geração de prata. Aí eu me pergunto: nós ganhamos duas medalhas de prata, como vamos ser reconhecidos? E até hoje o povo brasileiro tem essa mentalidade: vocês perderam para os EUA em 2008, perderam para a Rússia em 2012. É uma Olimpíada. A gente chegou a três finais seguidas... É difícil fazer uma comparação.

Mas você não acha que são reconhecidos como a geração de ouro?
Somos conhecidos como uma geração vencedora, com certeza. Depois de Londres, o Brasil foi a todas as finais de tudo o que disputou. Ganhou a Copa dos Campeões em 2013, no Japão. Na Liga Mundial de 2013 perdeu a final para a Rússia. Em 2014, perdeu a final da Liga para os EUA e a do Mundial para a Polônia. Mas o Brasil estava sempre lá. É uma geração nova, e continua no topo, não é cada hora um país está na final, cada hora um país está na final com o Brasil. Se vai ser campeão, é circunstância do momento, há muitos fatores. Mas eu acho que essa geração continua sendo vitoriosa.

O que acha do nível do voleibol adulto, ainda falta muita coisa ou está num bom estágio?
Faltar, sempre falta, melhorar a gente pode sempre. Tudo depende muito também... Quem coloca o leite na mesa é a nossa profissão. Na nossa época, todos os 12 jogadores jogavam fora porque o poder econômico no Brasil acabava não ajudando muito, e lá fora estava muito bom. E aconteceu o inverso quando todo mundo voltou. Com certeza, deu um boom enorme nisso e pode-se melhorar muito. O Brasil é muito grande, mas a CBV fez várias mudanças, de colocar o Campeonato Brasileiro, que seria a Série B. Começou a trazer mais o Nordeste para mais perto do voleibol, Norte, Centro-Oeste, aquela parte mais afastada que até então não tinha time. Antes eram Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, de vez em quando aparecia um time esporádico aqui e ali. Londrina teve durante um tempo. Mas é complicado, porque as empresas buscam um resultado imediato. Vão colocar o dinheiro, mas se em dois, três anos não ganhar, esquece.

Como viu a polêmica no comando da CBV, colocando de lados opostos Bernardinho e o ex-presidente da entidade, Ary Graça?
Cara, eu já estava fora, não posso falar nada. Enquanto eu estava lá, tudo funcionou nos trinques. Não adianta você me pedir para fazer uma comparação se não estou dentro do processo. Se perguntar quem é o melhor técnico, Zé Roberto ou Bernardinho? Para mim, os dois, joguei com os dois e aprendi com ambos em momentos diferentes. Eu não estava na organização, não era um cartola, era jogador, não tem como eu comentar se eu não estava dentro do processo. Isso em qualquer área, tá? Procuro não dar palpite se eu não sei o que está acontecendo.

O Ricardinho protelou a aposentadoria para investir num time na cidade onde ele cresceu, Maringá. Você já pensou em organizar um time, jogando novamente?
Jogando, não. Jogando, esquece. Já deu o que tinha que dar (risos).

Mas montar um time?
Já tentei, na verdade, em Curitiba, há alguns anos. Tentei fazer lá, mas sempre bati nessa tecla do patrocínio. Será que vai, será que não vai? Tentei durante cinco anos. E aí desisti.

O Bom Senso foi um movimento criado pelos jogadores para melhorar o calendário do futebol brasileiro e preservar os direitos trabalhistas dos próprios jogadores. Como você vê esse movimento e o que ele representa para o esporte brasileiro?
No futebol funciona porque é um esporte profissional. É difícil você implantar isso nos esportes amadores. Eu tomei um calote e fiquei sete meses sem receber na Argentina, entrei na Justiça e o time fala que eles é que vão me processar. Em 1996, na Chapecó, foi a mesma coisa, foram fazer o acordo com a gente em 2004 e mesmo assim pagaram 20% do valor. Quando você tem uma lei por trás, o respaldo de um esporte profissional, consegue fazer com que ela seja cumprida. Ali é uma união dos clubes, dos atletas e da associação que cuida dos atletas, os outros esportes infelizmente ainda não tem isso, incluindo o voleibol.

Você acha que o Bom Senso se fortaleceu porque é do futebol?
Claro, porque é profissional. Porque tem o respaldo da lei. Se coloca uma lei, o clube para. Nos outros esportes não temos isso. Se tiver, primeiro que acaba 50% dos clubes, vão ter que pagar de qualquer jeito e aí já muda o negócio. Em Volta Redonda tem um grupo de atletas fazendo esse movimento no voleibol, mas é gente que está sem nada, e aí acaba nivelando por baixo, porque o atleta vai acabar jogando por R$ 500, R$ 1 mil. Você para de estudar, de fazer tudo, e ainda tem o calote.

Estamos perto da Olimpíada no Rio. Como vê o Brasil e o trabalho de formação do vôlei nacional?
Vamos por partes. O Bernardo está preparando muito bem essa geração para as Olimpíadas. A geração é feita por ciclos. Eu parei numa Olimpíada, o Ricardinho parou numa Olimpíada, todo mundo para em Olimpíada. Se eu aguentasse jogar mais um ano, teria que aguentar quatro. Decidi que era melhor eu parar do que os outros pararem comigo. Ele está fazendo um trabalho muito bem feito para isso. As categorias de base deram um salto muito grande depois que a gente construiu o Centro de Saquarema, que aí tem as seleções juvenil e adulta juntas e aí vale como experiência principalmente para os mais novos. A base é difícil. Me lembro que quando eu jogava aqui em Londrina tinha Canadá, Arel, AABB, uns dois ou três colégios. Jogava o Metropolitano em Londrina com cinco ou seis times. Quantos times tem hoje em Londrina? Quando fui para Curitiba, tinha nove times no Metropolitano. Acho que tem ser uma PPP a solução, se não, não vai para frente. Os clubes sozinhos não conseguem de jeito nenhum. O poder público te dá um respaldo, o privado dá o patrocínio e o clube banca a estrutura, que é o que a gente faz hoje nos nossos projetos sociais.

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