ESPORTE - A revolução vai demorar
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sexta-feira, 03 de março de 2017
Fábio Galão<br>Reportagem Local 

Curitiba foi o palco da cena mais emblemática do futebol brasileiro neste começo de ano. No dia 19 de fevereiro, jogadores de Atlético Paranaense e Coritiba se deram as mãos no centro do gramado da Arena da Baixada e se retiraram. O abandono de campo foi um protesto dos dois clubes contra a Federação Paranaense de Futebol (FPF).
Ambos foram os únicos entre os 12 times do Campeonato Estadual que não aceitaram a proposta da RPC TV para transmissão de suas partidas. O Atletiba, válido pela quinta rodada do Paranaense, seria transmitido pelos dois clubes na internet. Entretanto, o árbitro do jogo alegou que os profissionais designados pelas duas agremiações para a transmissão não estavam credenciados para trabalhar no jogo, e a partida só poderia ter início se eles deixassem o gramado. As diretorias dos rivais curitibanos decidiram tirar os times de campo.
Após uma imensa repercussão, na última quarta-feira finalmente ocorreu o Atletiba, com transmissão nos perfis de Atlético e Coritiba no Facebook e no YouTube e vitória rubro-negra por 2 a 0. O evento teve mais de 3,5 milhões de visualizações.
Muitos consideraram a atitude de atleticanos e coxas-brancas um marco na briga dos clubes de futebol brasileiros por mais autonomia na transmissão de suas partidas e na relação com as federações organizadoras dos campeonatos. Apesar de elogiar a dupla curitibana, o especialista em marketing esportivo e pesquisador de finanças do esporte Amir Somoggi pondera, em entrevista à FOLHA, que o ato de resistência na capital paranaense foi um fato isolado e que não haverá mudanças significativas na estrutura que engessa o futebol brasileiro sem união dos clubes.
Na semana do Atletiba que não aconteceu, você escreveu no seu blog no Lance! que o futuro das transmissões esportivas está no streaming...
A tecnologia streaming permite a você falar com muito mais gente do que uma emissora de TV, aberta, fechada ou pay-per-view, não importa. O que importa é a quantidade de pessoas, esquecendo qualquer outra discussão. Se você comparar o quanto a Globo atinge, o SporTV, o PFC atingem, por exemplo, enquanto uma internet aberta atinge bilhões de espectadores, é incomparável.
Esse Atletiba que foi transmitido pela internet é um primeiro passo ou as grandes transmissões esportivas no Brasil via streaming ainda vão demorar para se tornarem comuns?
É um fato isolado, na minha opinião. São poucos exemplos de clubes que não acertaram a transmissão do seu estadual por alguma emissora. Só por conta disso é que é possível vislumbrar isso. Ninguém detém os direitos dos jogos de Atlético e Coritiba no Paranaense, isso é um marco na coragem e na posição dos clubes frente ao establishment. Seria muito mais cômodo pegar R$ 1 milhão e não ficar brigando, mas R$ 1 milhão para eles é pouco; se fossem R$ 5 milhões, provavelmente teriam aceitado. É a justificativa aqui em São Paulo, onde os clubes não peitam a federação porque ganham mais dela do que da Conmebol, por exemplo. É garantido: o Corinthians, ao participar do Paulista, ganha tanto ou mais do que se for campeão da Libertadores. Essa é uma questão que diferencia. Um clube, por exemplo, poderia fazer como o Benfica, que foi copiado pelo Porto, que expande a sua transmissão via internet porque o valor da TV é muito baixo. Me parece que o exemplo de Atlético e Coritiba cai como uma luva, porque o valor que a RPC ofereceu é muito baixo pelo que eles consideram o valor do seu conteúdo. E eles têm o direito, se eles se recusaram a assinar com a TV, de colocar no YouTube, sentir esse mercado e, quem sabe, explorar isso de forma mais contundente.
Como isso funcionaria na prática? Os clubes assinariam contratos de transmissão com as TVs e ao mesmo tempo transmitiriam os jogos nos seus canais oficiais na internet? Como seria possível conciliar isso?
Num mundo ideal, que ao que parece o contrato com a Globo não permite, o clube explora o streaming por conta própria se ele quiser. O que isso significa? Ele vai ter que ir atrás de um parceiro, vai ter que gastar dinheiro, montar uma equipe que produza esse conteúdo; é jornalismo, o clube começa a ter uma plataforma jornalística de si mesmo. Então, hoje alguns clubes já têm uma estruturazinha de TV, que passa (programas) no Premiere, mas não é disso que estamos falando, estamos falando de transmissão, com uma equipe própria ou terceirizada, e que ganha um percentual. Mas do quê? Aí entra a grande questão. O YouTube trabalha com um conceito aberto, livre, grátis, e aí você tem que ganhar dinheiro com anunciante, ou você faz como a NBA, que usou a tecnologia do streaming e criou uma "Netflix" da NBA. O League Pass da NBA nada mais é que uma Netflix, o cara paga para ver o que ele está oferecendo de conteúdo. Então, a viabilidade financeira é muito mais forte: você não está usando o YouTube, está usando o streaming, que é a tecnologia disponível no YouTube. Na TV por assinatura, tem a possibilidade de gravação, eu gravo o programa e depois assisto. Não é streaming, mas é parecido com streaming, não é internet, mas já tem essa tecnologia na TV a cabo, e você vê quando quiser. Estão tentando moldar um sistema que permita ao consumidor ser um pouco mais atendido. O grande diferencial do YouTube é que ele é uma TV aberta. Na Espanha, ele fechou com a liga espanhola, seria um pay-per-view do YouTube, em que você paga 4,99 euros por jogo e assiste (individualmente) ou compra o pacote completo por 20 euros. É um modelo. O YouTube negociou com a liga espanhola e fizeram um acordo, a liga e o YouTube, que é o melhor dos mundos. Então já tem uma monetização aí, o YouTube comprando os direitos de transmissão na internet.
Essa questão do Atletiba não foi relativa apenas aos direitos de transmissão, já havia antes uma briga política dos dois clubes com a federação. A tendência é os clubes assumirem a gestão dos campeonatos?
Atlético e Coritiba não vão conseguir o que a liga espanhola fez porque ao YouTube só interessa o volume, a escala, para ele poder pagar direitos de transmissão, negociar alguma coisa nesse sentido. Atlético e Coritiba estão fazendo uma revolução, sim, porque estão sendo corajosos de transmitir só pela internet, mas eles não são uma liga, não são uma CBF, uma federação estadual, esse é o problema. Nós precisaríamos que os clubes se unissem e aí negociassem realmente com o YouTube direitos de transmissão, que já estão muitos deles negociados com a Globo ou o Esporte Interativo.
Já vimos outras tentativas de os clubes se unirem e organizarem campeonatos. A Copa União e a Copa João Havelange (organizadas pelo extinto Clube dos 13) não tiveram sequência, a Primeira Liga está no segundo ano e já está se esfacelando. Por que essas tentativas não dão certo?
Eu acho que (o problema) são as pessoas. Eu conheço o (Mario Celso) Petraglia (presidente do Conselho Deliberativo do Atlético) muito bem, eu sei que ele pode ter todos os defeitos do mundo, como todos nós temos, mas ele é um gestor. Se vários petraglias se unissem, talvez eles conseguissem fazer uma liga. A Primeira Liga nasceu como uma aposta, foi uma primeira iniciativa, tanto é que deram o nome de Primeira Liga. Não apostavam tudo na Primeira Liga, Flamengo e Fluminense "entenderam" que o momento não era de ganhar dinheiro, mas montar uma união entre os clubes, (o que) poderia atrair outras forças. Aí, Atlético e Coritiba saíram da Primeira Liga (por divergências sobre a divisão das cotas de televisão). Eles estão fazendo uma revolução, mas eu não acredito numa mudança de cenário no curto e médio prazo.
Por essa incapacidade dos clubes de se unirem para fazer essa gestão?
A união entre os clubes é fundamental nisso, e em todos os outros temas, como calendário, por exemplo, violência no futebol, a entrada dos clubes europeus com tudo no Brasil. Você tem 50 temas que interessam a todos, unidos, como a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo). Por que São Paulo é tão forte? Porque aqui existe a Fiesp, que reúne as grandes empresas do Estado, que questiona o governo sobre a supercarga tributária, que faz lobby por determinados aspectos, é assim que funciona, mas de uma forma organizada. Deixando nas mãos da CBF, com os clubes desunidos e as federações estaduais no meio ainda, você não vai conseguir nada.


