Formado por diferentes etnias, o Brasil é um país de diversidade cultural e religiosa. Embora ainda seja majoritariamente católico, é grande o número de religiões professadas hoje. Entre essas, está o Espiritismo.

Segundo o último censo realizado pelo IBGE, em 2000, 2,3 milhões de pessoas declararam-se espíritas, o que torna o Brasil o país com mais adeptos no mundo. Quando se conta os simpatizantes, esse número chega a 20 milhões. O Brasil também foi o berço de um dos médiuns mais conhecidos e respeitados mundialmente, Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier.

A ausência do culto a imagens e de rituais, como casamento e batismo são algumas das características dessa religião. Além da Bíblia, há outros cinco livros básicos - O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho Segundo o Espiritismo, o Céu e o Inferno, e A Gênese, que também servem de referência para os estudos espíritas.

Astolfo Olegário de Oliveira Filho é o atual presidente do Conselho de Administração da Comunhão Espírita Cristã de Londrina. Nesta entrevista ele fala sobre a origem, os princípios da Doutrina Espírita e a relação com outras religiões.

Como surgiu o Espiritismo?
No tocante aos fenômenos, o Espiritismo surgiu no povoado norte-americano de Hydesville em 31 de março de 1848, a partir dos fatos que se verificaram na casa das irmãs Kate e Margareth Fox. Designados pela palavra inglesa ''raps'', os fenômenos na residência dos Fox eram constituídos de sons semelhantes a pancadas numa mesa ou numa parede e de movimentação de objetos. Por meio dos ''raps'' ocorreu naquele povoado a primeira comunicação da era moderna produzida por espíritos de pessoas que haviam vivido na Terra. A partir de então os fenômenos assumiram formas variadas até chegar à chamada psicografia indireta, ou escrita automática, quando então surgiu a Doutrina Espírita, fruto direto do trabalho do professor francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, então residente em Paris, que publicou em 18 de abril de 1857 a primeira obra espírita, ''O Livro dos Espíritos'', que ele assinou com o pseudônimo de Allan Kardec. Essa obra assinala oficialmente o nascimento da Doutrina Espírita ou Espiritismo.

Quais são os princípios fundamentais do Espiritismo?
A crença num Deus único, que o Espiritismo define como sendo a inteligência suprema e causa primária de tudo o que existe no Universo; a imortalidade da alma; a reencarnação; a pluralidade dos mundos habitados; e a comunicabilidade entre o homem e os espíritos.

Muitos acham que os espíritas não são cristãos, pois acreditam em reencarnação. O que o senhor diz sobre isso?
O padre François Brune, autor do livro ''Os Mortos nos Falam'', é padre e, no entanto, acredita na reencarnação. O que pouca gente lembra é que até o terceiro século da Era Cristã, ou seja, antes do advento do Catolicismo, os cristãos pregavam abertamente a lei da reencarnação, a exemplo de Orígenes e muitos outros pais da Igreja. E Jesus fala sobre ela de modo muito claro em inúmeras passagens, como no diálogo com Nicodemos, a quem o Mestre disse que é preciso nascer de novo, da carne e do espírito, para conquistarmos a vida eterna.

Outro questionamento é sobre o ''falar com os mortos'', que estaria proibido na Bíblia segundo algumas religiões. Os espíritas infringem mesmo essa regra?
Não. O que o Antigo Testamento proíbe é a consulta aos mortos e sua evocação, proibição essa que não consta do Novo Testamento. A Igreja Católica é, como sabemos, contrária também à evocação dos mortos, mas nós espíritas não temos por hábito evocar os falecidos e, no Brasil, seguimos de um modo geral uma recomendação expressa nesse sentido, de autoria de Emmanuel, por intermédio do médium Francisco Cândido Xavier. Desse modo, nas reuniões espíritas em que ocorre intercâmbio com o plano espiritual, os comunicantes apresentam-se espontaneamente, sem que sejam a isso chamados.

Qual a diferença entre o Espiritismo e outras religiões?
No caso das demais religiões cristãs, as divergências situam-se em poucos pontos. Um deles é a reencarnação, que católicos, protestantes e evangélicos não admitem, embora individualmente mais da metade da população brasileira seja reencarnacionista, como já foi demonstrado por diversas pesquisas. Outro ponto é a evocação dos mortos, que católicos e protestantes também não aceitam e que os espíritas, como já disse, não praticam. No caso das religiões de origem africanista, como a Umbanda e o Candomblé, há diferenças no tocante à prática da mediunidade, visto que no Espiritismo não se admite o uso do tabaco e da bebida alcoólica, bem como sacrifícios de animais.

Existem outras religiões ou doutrinas que também acreditam em reencarnação e livre-arbítrio. Podemos classificá-las de espíritas?
Há muitas religiões que admitem e apregoam a reencarnação. O Budismo é uma delas. Nem por isso é lícito chamá-las de espíritas, porque o que caracteriza o Espiritismo é um conjunto de princípios, a que nos referimos na pergunta inicial, que nem todas admitem. Para alguém se declarar espírita é preciso conhecer e admitir esses princípios.

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