Em seu tão esperado pronunciamento de ontem, no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, o deputado Roberto Jefferson apenas repetiu o que havia dito na entrevista ao jornal Folha de S.Paulo. Nada acrescentou de novo nem apresentou uma lista de envolvidos no caso do mensalão, mas isto não significa que sua denúncia não tenha fundamento. A opinião pública acredita na existência do esquema de mesadas, o que, embora vergonhoso e tenha causado grande repercussão, é ainda coisa pequena em volume de dinheiro diante de episódios do gênero muito mais escabrosos que têm envolvido parlamentares e administradores públicos. Contra o próprio denunciante também pesam acusações, e, de parte a parte, as provas são difíceis, porque a corrupção não passa recibos. O episódio de ontem no Conselho de Ética resultou num espetáculo deprimente de acusações e contra-acusações, mostrado pela televisão do Congresso, mas certamente nada contribuirá para alterar a ordem das coisas no âmbito parlamentar e nas relações de poder. A figura do presidente Lula foi poupada (e até exaltada) pelo deputado Roberto Jefferson, mas não deixa de ser intrigante a afirmação que fez, de que o chefe do Governo não sabia do esquema que seu partido praticava. Não se imagina que o PT agia em benefício do próprio Governo e que o Presidente não tinha conhecimento do que seus companheiros de partido faziam. O partido e o Governo no poder são instituições distintas, mesmo que ambos formem no idêntico bloco, mas é muito estranho que o PT operasse na compra de votos parlamentares sem conhecimento do chefe supremo, o que, a ser verdadeiro, significa que exercia, à revelia, funções paralelas de governo. Uma demonstração não apenas de corrupção ativa do PT mas de nenhuma respeitabilidade do partido para com seu mais importante filiado, o presidente Lula. O episódio revela a existência de forças paralelas no âmbito do poder, capazes de desestabilizar os alicerces da governabilidade ao apelar para expediente de tão alto risco como os das mesadas. Roberto Jefferson declarou que Lula ficou perplexo quando ele lhe levou a informação sobre a existência do mensalão. E ontem, em seu relatório de defesa oral, chegou a pedir publicamente ao ministro José Dirceu a quem chamou de Rasputin que se afaste do Governo e deixe Lula livre para governar. O show na Comissão de Ética foi um retrato eloquente de como as coisas funcionam na relação dos poderes. De um lado, um organismo parlamentar autofágico, que não inspira credibilidade, e de outro o Governo dominado por eminências internas, portanto em seu próprio círculo, detentoras de muito poder e capazes de levar ao emperramento da governabilidade e de gerar instabilidade nacional. O momento reclama que o presidente Lula tome uma decisão corajosa e afaste toda a banda nociva de seu ministério, o que lhe dará condições de restabelecer sua própria autoridade e, afinal, governar como disse que faria quando em campanha. A oportunidade é única para uma virada de mesa, que poderá anular desgastes políticos com as CPIs que virão e capaz de propiciar um renascimento do Governo Lula, que ainda tem um ano e meio de mandato efetivo e a perspectiva de continuar no poder, pela reeleição.

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