Uma das cidades mais poluídas do mundo, nas décadas passadas, a cidade de Cubatão (SP) foi rebatizada, em matéria de conhecida publicação norte-americana, em 1980, como o ''Vale da Morte''. Até o prefeito de Cubatão recusava-se a morar na cidade e de cada mil crianças 40 morriam após uma semana de vida.

A angústia de Cubatão, situada na Baixada Santista (SP), foi aplacada a partir de 1983, graças a um Programa de Recuperação Ambiental. Vinte e cinco anos depois e US$ 1 bilhão em investimentos, a cidade apresentou 98% de redução nos índices de poluição mesmo diante de um aumento de 39% na escala de produção.

Autor do estudo que detectou essas evoluções, o especialista ambiental Eduardo Cunha San Martin defende, em entrevista à FOLHA, modelo extensivo a muitas metrópoles e empresários mundo afora. Segundo ele, um projeto de recuperação ambiental nunca é dado como finalizado após o êxito, e exige continuidade.

Cubatão era conhecida nos anos 80 como o Vale da Morte. Qual foi a origem do problema?
Cubatão era um grande erro da década de 1970. A Legislação Ambiental surgiu em 1976 e em 1922 começaram a ser instaladas as primeiras indústrias por lá. Em 1975, um ano antes, já haviam 18 grandes empresas operando. No início da década de 1980, a condição ambiental de Cubatão era crítica. Tanto é que uma grande mobilização por parte comunidade da cidade fez com que o órgão ambiental público, a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) e o pólo industrial fizessem uma grande parceria para um programa de recuperação ambiental da cidade, iniciado em julho de 1983.

Como funcionou isso?
À época, a Cetesb foi em cada uma das indústrias e mediu a emissão de cada tipo de poluente. Foram identificadas as principais fontes de poluição. Os resultados dessas medições nos deram o estado real da situação. A qualidade do ar estava em estado crítico, com concentrações altíssimas de poluentes atmosféricos, não existia vida aquática, muitas áreas estavam contaminadas, pássaros eram seres raros na região, a qualidade ambiental era muito ruim. Passados 25 anos, os índices de emissão de poluentes pela área industrial tiveram uma redução significativa.

Quais foram os valores investidos e os resultados obtidos posteriormente?
As indústrias investiram US$ 1 bilhão nos últimos 25 anos para oferecer os resultados hoje observados. No que diz respeito à poluição do ar, houve uma redução de 98,98% de material particulado, 95,79% de hidrocarbonetos e cerca de 99% de amônia e fluoreto, os últimos, responsáveis pela degradação da vegetação. Na época, a Serra do Mar apresentava muitas falhas por conta desses dois últimos poluentes.

Como conciliar conservação da natureza com desenvolvimento? A produção industrial cresceu nesses 25 anos, não?
Sim. A produção industrial de Cubatão aumentou em 39%. Controlar a poluição e melhorar a qualidade ambiental diminuindo a produção é fácil. Vivenciamos o inverso: houve o aumento da produção e os poluentes foram reduzidos. A captação de água nos rios diminuiu em 28,3%. Houve uma reutilização de água, entre outras iniciativas, através de um sistema de captação de água de chuva, por exemplo. Em relação ao consumo elétrico, realmente é possível produzir mais em um menor espaço de tempo, reduzindo o consumo de energia. A realidade mostra uma redução de 23% no consumo de energia elétrica, duas décadas de meia depois. As empresas têm investido em tecnologias avançadas nesse sentido, visando uma produção limpa.

Hoje os empresários não têm escolha, tendo que adotar uma postura pró-ativa. Há 25 anos a realidade não era essa...
O que aconteceu com Cubatão foi que, em 1983, as pessoas viram que não dava para continuar daquele jeito. As próprias empresas viram que alguma coisa tinha que ser feita. Acredito que a saída para problemas ambientais decorrentes da poluição seja a mesma: empresários e órgãos reguladores somando forças a fim de promover o desenvolvimento sustentável. Hoje o empresário inteligente sabe que não adianta produzir degradando a região onde sua empresa está instalada. É um péssimo negócio. O mundo é globalizado e um produto brasileiro, para ser aceito no mercado internacional, tem que levar em conta as componentes ambientais. Já faz parte de nosso dia-a-dia.

Podemos dizer, então, que os problemas ambientais em uma cidade como Cubatão tiveram fim?
De forma alguma. Temos a questão veicular ainda: muito se fala em relação às empresas, mas esquecemos do poluente veicular. Ali, há uma circulação intensa de veículos, como caminhões utilizando óleo diesel, emitindo particulados, hidrocarbonetos, e veículos a gasolina que emitem compostos voláteis. Isso tudo prejudica, ainda, a qualidade ambiental. A indústria fez a parte dela, agora a questão veicular precisa ser enfrentada com a mesma firmeza que foi tratada a questão industrial. Estamos atrasados em relação à essa questão. E é importante lembrar: um programa ambiental, em qualquer parte do mundo, não tem fim. Apenas continuidade.

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