Não sou uma ave de mau agouro, nem profeta da desgraça e muito menos um “velho do Restelo”, como denunciava Camões. Costumo pautar a minha reflexão em parâmetros de esperança e otimismo, enxergando, mesmo na tempestade avassaladora, sinais de um Deus que conduz a história a bom termo. Porém, não tem sido fácil, querido leitor, viver neste mundo, na aurora de 2026. Reconheço, com pesar e muita angústia, que o frágil equilíbrio, numa espécie de “corda bamba”, que nos livra de um holocausto final, de destruição da espécie, é exatamente a existência de armas nucleares de “dissuasão”. Triste paradoxo. Mísseis responsáveis pela paz. Uma “paz romana” que interessa a poucos, mas é o que nos resta. São as migalhas que caem de uma mesa belicosa, na qual os grandes senhores deste pequeno mundo o fatiam segundo os seus mais escusos interesses.

Malgrado esta desventura, no Dia Mundial da Paz, lembrado em 1º de janeiro, continuamos celebrando o desejo inato de vê-la e senti-la em forma de desenvolvimento, fartura e segurança para todos os terráqueos, com a coragem de não nos deixarmos abalroar pela constatação de que, para muitos, ela ainda é uma utopia. Reconheço que ficar de pé, olhando o futuro, é um ato de extrema nobreza e galhardia.

Outrossim, a esperança, do verbo esperançar, é o oxigénio que nos mantém vivos. Não suportaríamos os dias e os anos sem uma boa dose de crença num amanhã diferente e melhor. Um futuro que se constrói. Uma renovação que se impõe, proporcionando-nos novos olhares, novas contendas, auspício de certas vitórias que ainda não enxergamos. Tal tecelão paciente, entrelaçamos os fios de uma existência marcada pela teimosia e pela resiliência. Isso é viver. Um diálogo constante e profícuo com a arte de edificar a história, prenhe do nosso DNA. A esperança que nos anima é resgatada perenemente do lodo do pessimismo e do pântano que parece nos engolir. “Dos fracos não reza a história”, como se canta na minha terra.

Temo, contudo, que o desgaste constante com as loucuras a que este mundo nos expõe possa empurrar-nos para certo determinismo e nos leve a abrir mão do mais sagrado que existe em nós: a ideia do protagonismo antropológico no comando da própria história. Pois, se pela fé acredito que nada escapa a Deus, também pela fé creio que nada Ele rouba ao ser humano como autónomo parceiro na construção da própria vida. Parece uma equação difícil, mas ela traduz não apenas o pensamento bíblico, como também define a essência do que necessitamos para a nossa odisseia no Planeta Terra. É sendo sujeitos livres e responsáveis que edificamos uma civilização marcada pela convivência pacífica entre todos e com a natureza. O homem e a mulher não poderão demitir-se das incumbências que o simples ato de existir lhes faculta. A novidade que está embutida nos eventos que se sucedem é provocada e configurada a várias mãos.

O ano de 2026 apresenta inúmeros desafios. Talvez os maiores se prendam ao “novo normal climático” e à sobrevivência da democracia e do Estado de Direito pelo mundo afora. Os fenómenos climatéricos, cada vez mais frequentes e intensos, exigirão atitudes sábias e determinadas. As nossas cidades terão de se reinventar. Por outro lado, o avanço da extrema-direita colocará em xeque o establishment democrático do pós-Segunda Guerra Mundial. Questões como a imigração e os refugiados forçados continuarão na pauta do dia e em bandeiras eleitorais empunhadas por falsários e vendedores de ilusão. O cidadão comum se perguntará como melhor sobreviver neste período repleto de incertezas. Um olhar para a história será de muito proveito. Não cometamos os mesmos erros da década de trinta do século passado.

Feliz Ano Novo!

Pe Manuel Joaquim R. dos Santos - Arquidiocese de Londrina.

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