ESPERANÇA - Fim da corrupção não é utopia
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Bruno Maffi<BR>Reportagem Local 
Mesmo atingida esporadicamente por grandes escâdalos, a Igreja Católica não ameniza seu discurso sobre a justiça e os radicais valores cristãos. Seus líderes mais conceituados, mesmo estando na faixa dos 70 e 80 anos, não têm medo de criticar sistemas de governo, comportamentos e as modas dos jovens. Um questionamento comum é: a Igreja tem capacidade de continuar sendo uma voz responsável por iluminar a sociedade ou seus mandamentos são ultrapassados e reprimem o crescimento da humanidade?
O arcebispo emérito de Curitiba, dom Pedro Antônio Marchetti Fedalto, 84 anos, garante que a Igreja Católica pode e deve ser uma referência. O religioso acredita que a missão do Catolicismo é ser uma consciência para a humanidade, lembrando o que é correto e justo. ''Como aquela voz que fala em nossa mente, que não nos deixa cair no engano, no erro. Como uma mãe que não se cala ao ver o filho adolescente provando os sabores da vida, sem saber que eles podem ser amargos demais. Assim a Igreja se comporta. Claro que há limites humanos dentro dela. Mas sua missão é divina, é lembrar o homem que ele é uma criatura e não um deus'', afirma.
Nesta entrevista, dom Pedro Fedalto aborda também alguns dos maiores problemas nacionais: a corrupção e a violência. E aponta caminhos para a superação desses obstáculos para o desenvolvimento social do País. ''Tenho esperança que um dia o Brasil será um país coerente, com governantes justos e um povo consciente''.
O Brasil ainda é o país mais católico do mundo. Se somos um povo de tanta fé, por que tanta violência, assassinatos e corrupção?
Porque a fé do povo brasileiro não acompanha a moral. A fé tem que ser executada na moral, na obediência à lei de Deus. Não basta ter fé e ser cristão sem a moral.
Como o senhor vê casos de violência extrema, como o desaparecimento de Eliza Samúdio e o suposto envolvimento do goleiro Bruno?
É gravíssimo. É um resultado de falta de formação humana e de consciência do juízo de Deus. Os mandamentos do Senhor estão todos em vigor. Quanto mais as pessoas se afastam de Deus, mais violência vemos no mundo. Porque a violência é uma ruptura ao princípio evangélico do amor a Deus e ao próximo. Como falta amor acontece tudo isso ao mundo.
A Igreja tem uma linguagem contemporânea aos jovens, mesmo com a maioria de seus líderes serem pessoas com mais de 60 anos?
Mesmo que o bispo ou padre seja idoso, a mensagem de Jesus Cristo é sempre nova e atual. Os nossos jovens sabem entender nossa linguagem. O evangelho fascina o jovem. Quando o papa reúne os jovens para a jornada mundial ele fala a uma multidão de 1 milhão de pessoas, vindas de todas as partes do globo. Isso acontece anualmente, a próxima será em Madri, na Espanha. Temos muitos padres jovens, mas a formação e experiência dos mais velhos sempre será valorizada pela Igreja.
A corrupção é uma das mazelas que mais afligem o povo brasileiro atualmente. O senhor acredita que a lei da Ficha Limpa vai ajudar a moralizar a política?
Nós começamos esse processo, reunindo assinaturas em nossas celebrações. Vai funcionar. Vamos cobrar, vamos vigiar para que essa lei seja cumprida e não vão faltar padres para conscientizar o povo, nas missas e na mídia, para um voto mais inteligente, mais criterioso.
O fim da corrupção no Brasil não é uma utopia?
A justiça é um valor eterno. A verdade e a paz serão sempre proclamadas, almejadas, não são utopias. Eu creio que ainda veremos se levantar em nosso país uma geração que não aceitará ser enganada, que não aceitará políticos que se beneficiem de seus postos para enriquecer. Meu lema episcopal é ''a verdade na caridade''. Fazendo o que é reto alcançamos todas as coisas necessárias para o bem-estar da sociedade.
Quais as suas expectativas para as próximas eleições?
Não podemos perder a esperança. Infelizmente nosso povo não está suficientemente preparado para eleger bons governantes. O povo brasileiro precisa acordar de seu comodismo. Temos boas opções, mas nada garante o que vai acontecer após a eleição, até os melhores nomes podem se tornar as piores desgraças para a nação. O que fazer nesses casos? Não aceitar que pessoas tiranas governem sobre nós. Eu já aviso, se não der certo, saiamos à rua, não podemos perder o ritmo de crescimento em que o Brasil entrou. Como eleitores somos culpados de não eleger pessoas boas e também de deixá-las permanecer no poder.
Qual o papel da Igreja nesse processo?
A Igreja não é política, mas a política faz parte dela, porque os homens estão neste mundo, não no céu. Aqui deve ser organizada a vida e essa organização se chama política. Nós podemos formar o povo, conscientizar, abrir a mente das pessoas para uma visão mais crítica.


