Especulação e eleições (Rubem Azevedo Lima)
Já se registrou, aqui mesmo, com a estranheza que o fato merecia, a coincidência da prosperidade econômica dos Estados Unidos, de um lado, e, do outro, um mundo cuja economia está mergulhada quase completamente em dificuldades. É como se os EUA, talvez por emitirem a moeda hegemônica ou exercerem o controle, em proveito próprio, dos instrumentos reguladores da economia - como o FMI, o Banco Mundial, o Acordo Mundial de Comércio, o Acordo de Patentes etc. - vampirizassem a riqueza dos demais países e os empobrecessem.
Essa disparidade inexplicável entre um país cada vez mais rico - no qual, porém, a pobreza dos pobres também aumenta - frente a países ricos que ficam mais pobres e vêem agravar-se os seus problemas internos, é um fenômeno que desafia a argúcia de políticos e economistas, neste final de século e limiar de um novo milênio.
Pois, agora, verifica-se existir, à margem desse fenômeno, uma coincidência que parece ajudar a deflagrá-lo e que é produzida, consciente ou inconscientemente, pelo próprio ser humano, em seu voraz apetite de lucro. Só um tipo de gente, no entanto, está apto a produzi-la: o que é conhecido, mundialmente, como a raça dos especuladores.
Tal constatação não é nada alvissareira para o Brasil nem para o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Segundo os economista, a volúpia especuladora se manifesta, invariavelmente, nas ocasiões de maior fragilidade política dos governos cujos países interessam à especulação. E nenhum momento fragiliza tanto os governos quanto os períodos eleitorais. É quando os governantes tentam eleger seus sucessores ou reeleger-se eles próprios e praticam políticas controladas de favorecimento econômico a seus parceiros ou aliados, evitando porém agravar as condições de vida do eleitorado. Nessas ocasiões, os especuladores internacionais agem com desenvoltura, pois sabem que o governo do país alvo não pode adotar medidas econômicas draconianas, antipáticas e impopulares, para contê-los. Algo como o pacote baixado pelo governo, ao final de 1997, se fosse adotado em junho ou julho do ano corrente, com certeza tiraria qualquer chance reeleitoral de FHC.
Os economistas que constataram a existência desse fenômeno dizem tê-lo identificado no México, Argentina, França, Espanha, países asiáticos e outros mais, às vésperas das respectivas eleições. Para evitar derrotas iminentes, os governos desses países deixaram de agir em tempo hábil contra os especuladores. O mais dramático, no caso, porém, é que tanto a omissão oficial dilatória quanto as ações de última hora, para evitar os efeitos danosos da especulação internacional, não garantem que os governos se livrem da derrota nas urnas. Em melhores palavras: no tocante à especulação mundial, se ficar, o bicho come; se correr, o bicho pega. Para FHC, em plena campanha, resta esperar que o bicho esteja manso ou só morda ou corra após as eleições. Mas atrás dos eleitores!





