Durante a gravidez, que atire a primeira pedra: Qual mãe nunca ficou em dúvida entre o parto normal e a cesárea? Enquanto a Organização Mundial de Saúde (OMS), recomenda que só 15% dos partos sejam cesarianas, o Brasil computa uma das maiores taxas mundiais do procedimento: 80% desse tipo de parto, na rede particular, e 27%, na rede pública.

O ginecologista e obstetra Marcelo Carvalho de Mendonça, autor de um trabalho acadêmico intitulado ''Análise Bioética de Artigos da Revista Femina Sobre Parto Normal e Cesárea (1998-2005)'', em entrevista à FOLHA defende uma redução estatística que favoreça o parto normal. Para isso é preciso conscientizar a população e os profissionais da saúde, melhorar a remuneração destes profissionais e o principal: investir em estrutura.

O Brasil apresenta uma das maiores taxas mundiais de cesáreas. Quais as explicações para o fato?
Na realidade, o Brasil já foi o campeão mundial de cesáreas. Hoje, o Chile lidera o ranking. O Brasil, por sua vez, diminuiu um pouco esse índice. A preocupação é antiga. Em 1997, o Ministério da Saúde editou uma norma pedindo que os hospitais passassem o número de incidência de cesáreas ao ministério. Em 1998, o ministério passou a regular o número máximo de cesáreas realizadas num hospital. Em relação aos fatores que desencadeiam a quantidade de cesáreas registradas atualmente, importante lembrar que mulheres com cesáreas anteriores têm uma chance muito maior de se submeterem a novas cesáreas. Um segundo aspecto: temos um berçário de excelente qualidade, com condições de receber, hoje, pela UTI Neonatal, uma criança em piores condições. Uma patologia é uma indicação maior de cesárea.

Nos outros países também funciona assim ou somente no Brasil?
Nos outros países tem aumentado o índice de cesáreas. Nos Estados Unidos, há campanhas para regular cesáreas e estimular o parto normal. Em países do Leste Europeu, na França e no Japão, os índices são mais baixos.

Por que? Não temos estrutura?
Exatamente. Tive a oportunidade de trabalhar na Itaipu Binacional, no Hospital Modelo Costa Cavalcanti, em Foz do Iguaçu, onde se fazia muito parto normal. Lá existiam monitores fetais e uma enfermeira-padrão controlando o trabalho de parto, todo o processo, junto a um médico e a um auxiliar de enfermagem. Nos Estados Unidos, precisamente em Baltmore, conheci um hospital, um dos melhores que existem no mundo, que funciona da mesma maneira. E o interessante: o marido junto com a gestante acompanhando todo o trabalho de parto. Por aqui, não vejo essa evolução dentro do segmento de trabalho de parto.

O governo, por meio de campanhas, e os planos de saúde incentivam o parto normal. Como fica o médico, muitas vezes taxado de ''vilão'', diante da situação?
Como ''bucha de canhão''. De um lado, governo e planos defendem o parto normal, pois custa mais barato aos seus respectivos cofres. A cesárea é mais cara. A paciente, por sua vez, quer evitar a dor, ou às vezes o medo de um parto normal. E o médico está no meio da situação, passando-se como vilão ao ser perguntado por que não faz parto normal.

E por que não faz?
Não funciona assim. O parto normal é natural e a cesárea é um procedimento cirúrgico. No parto normal, a qualquer momento alguma coisa pode acontecer. Na cesárea, há um maior controle da situação. O parto normal expõe um pouco mais o profissional a alguns riscos. E, uma vez não havendo estrutura, os riscos de um acidente são maiores, colocando, mais uma vez, uma faca no pescoço dos médicos. Aí já entram os aspectos jurídicos.

Qual a conduta que o senhor assume e que recomenda?
É até uma questão de bioética conversar com a paciente e deixá-la a par de toda a situação. Procuro avaliar as pacientes, por exemplo, no final da gravidez fazendo o toque, verificando se o nenê está baixo e avaliando a dilatação. Se vejo que a paciente vai evoluir rapidamente em parto normal, que vai ser um parto tranquilo para ela, sugiro. Jamais me coloco favorável à cesárea. O que não podemos é deixar de lado o bom censo: em casos mais complicados, partimos para a cesárea. Tudo, num princípio de discussão, trocando idéias. Essa conversa é importantíssima.

Se o governo investisse, de fato, em estrutura, teríamos índices melhores?
O Brasil conta com uma estrutura diferente. Em outros países, a saúde pública permite que a paciente tenha assistência de médicos distintos, no pré-natal e no parto, por exemplo. Aqui, esse sistema é mais restrito. Lá fora, funciona bem porque os salários são bons, a estrutura favorece e não é preciso conciliar consultório com hospitais e demais atribuições que recaem sobre os médicos. Por aqui, no contexto atual, se a população tivesse mais acesso a recursos, certamente o índice de cesáreas seria ainda maior que a taxa de 27% registrada na rede pública em algumas regiões do país.

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