ESPECIAL Preconceito ainda é o maior desafio
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sábado, 13 de julho de 2002
Phoenix Finardi<br> Reportagem Local 
Apesar dos avanços da medicina, a Aids continua sendo uma doença sem cura e os portadores do vírus ainda não se livraram do preconceito. São duas coisas difíceis de lidar para os adolescentes. ''Nós nunca dizemos que a Aids não tem cura. A gente fala da Aids como uma doença crônica. Ninguém sabe quanto tempo eles vão sobreviver'', indica a médica Jaqueline Capobianco, chefe da equipe multidisciplinar do Hospital de Clínicas de Londrina que atende adolescentes com Aids.
As crianças que nascem com o vírus podem apresentar três tipos de comportamento: progressão rápida da doença e morte nos dois primeiros anos de vida; desenvolvimento da doença na idade pré-escolar ou o surgimento das primeiras doenças oportunistas durante a adolescência.
''Estamos conseguindo retardar cada vez mais a progressão da doença, além de prolongar o tempo e a qualidade de vida dos doentes'', informa a médica. Todos os medicamentos são fornecidos pelo Ministério da Saúde. Os adolescentes têm assistência médica e psicológica semanal no ambulatório do hospital.
O preconceito é outra batalha, que começa na família. Geralmente são os avós que cuidam das crianças. ''No início eles fazem muitas perguntas, têm dúvidas relacionadas à rotina diária, mas com o tempo os familiares se adaptam.'' O mesmo grupo de médicos e psicólogos que cuida das crianças também trabalha com as famílias. Como todas as crianças frequentam a escola, às vezes eles também orientam diretores e professores.
''Nossa orientação é sempre generalizada porque nenhuma criança deve ter tratamento diferenciado. Nós ensinamos como se deve proceder com acidentes que tenham exposição de sangue e, na verdade, isso vale para todas as escolas e não só para as que têm crianças infectadas com o vírus'', ensina Jaqueline. Na verdade, a família não é obrigada a informar para a escola que a criança é portadora do vírus. De acordo com a médica, a maioria das famílias atendidas pela equipe do hospital preferiu contar a verdade para a diretora.
''A criança com Aids é muito vulnerável a qualquer doença, principalmente essas comuns na infância como a catapora e o sarampo. Se a direção da escola sabe que a criança tem Aids, os pais podem ser informados com antecedência se uma outra criança aparecer doente na aula'', argumenta.
Entre os adolescentes com Aids parece existir um ''pacto de silêncio''. Eles não contam aos amigos que têm o vírus e muitos evitam até falar sobre a doença. ''Eles têm muito medo do preconceito. Nesta fase eles querem ser iguais, não diferentes; querem ser aceitos pelo grupo. Assim como uma adolescente diabética não fica comentando que têm a doença, os adolescentes com Aids também não querem que ninguém saiba que são portadores do vírus'', diz Jaqueline.
Muitas das perguntas sobre o futuro ainda ficam sem respostas para os adolescentes e para os médicos que trabalham com eles. A luta diária contra as doenças oportunistas e o preconceito fortalece, de um lado, a vontade de viver e, do outro, a vontade de descobrir uma cura definitiva para a Aids. ''O mais importante é olhar para a frente. Todos os dias novas drogas são descobertas. Nessa luta contra o tempo, a gente já marcou muitos pontos contra a doença. Antigamente, o diagnóstico de Aids era uma sentença de morte. Hoje, os pacientes sabem que podem lutar pela vida.'' E, afinal, a luta pela vida é a luta de todos. Cada um a seu modo.


