ESPECIAL Jovens com Aids constroem a vida
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sábado, 13 de julho de 2002
Phoenix Finardi<br> Reportagem Local 
Para a maioria das crianças, a chegada da adolescência é o tempo das descobertas sobre o amor e a sexualidade. É uma época de conflitos, muitas dúvidas e, geralmente, algum sofrimento. Em Londrina, um grupo de adolescentes enfrenta essa fase com um agravante que torna tudo ainda mais perigoso e assustador: todos nasceram com o vírus da Aids e já desenvolveram a doença.
São quatro adolescentes, um menino e três meninas, que têm entre 11 e 15 anos de idade. Eles estão sendo acompanhados há quatro anos por uma equipe multidisciplinar do departamento de Infectologia Pediátrica do Hospital de Clínicas. Responsável pela equipe, a médica Jaqueline Capobianco explica que todos estão em tratamento desde que nasceram mas só agora estão descobrindo que a doença com a qual eles convivem desde pequenos é Aids. ''Com certeza essa é a descoberta mais triste que elas vão fazer nesta fase'', reconhece a médica. De acordo com ela, o ideal é que a família conte a verdade para a criança mas a maioria dos pais e avós tem dificuldade para fazer isso.
Enquanto são pequenas, as crianças não fazem muitas perguntas sobre os remédios que tomam diariamente. ''É mesmo muito complicado explicar a Aids para uma criança de 4 ou 5 anos. A família geralmente justifica os remédios dizendo que ela têm uma anemia ou um problema no rim, coração... Com o tempo elas vão se informando e aí vai caindo a ficha'', diz a médica. O momento certo para contar a verdade tem que partir da própria criança. De acordo com Jaqueline, é só quando ela tem coragem de perguntar se tem Aids é que ela está pronta para enfrentar o diagnóstico. ''Quando a família não responde, elas perguntam pra gente e daí nós dizemos a verdade.''
Todos os adolescentes do grupo foram infectados por transmissão vertical, ou seja, contraíram o vírus antes de nascer ou na hora do parto. Mais de 90% das crianças que têm a doença foram infectadas pela mãe. Por isso a prevenção é tão importante. Quando uma gestante que têm o vírus não faz nenhum tipo de profilaxia, o risco de que ela vá transmitir a doença para o bebê chega a 40%; se for feito um tratamento enquanto o bebê ainda está útero, esse risco cai para 8% e pode diminuir ainda mais, até 2%, se for feita uma cesariana na hora do parto.
Os números da Aids no mundo mostram que os chamados ''grupos de risco'' (homossexuais, viciados em drogas, entre outros) não existem mais e que o número de mulheres infectadas aumentou muito nos últimos 10 anos. Em 1983, as estatísticas mostravam que havia 18 homens infectados para cada mulher. A partir de 1997 eram apenas dois homens para cada mulher e atualmente não existe mais diferença de índice entre os sexos.
Um dado alarmante mostra que a maioria das mulheres infectadas no Brasil está em idade fértil, ou seja, tem entre 25 e 30 anos. Uma pesquisa feita por profissionais do HC em Londrina aponta que 15,7% das mulheres infectadas não tinham qualquer fator de risco não eram viciadas em drogas nem tinham mais de um parceiro sexual. ''A coisa mais importante que a gente pode fazer pelas crianças é conscientizar as mães a se prevenir'', ressalta Jaqueline.
Além do teste durante o pré-natal, que é feito gratuitamente pelo SUS, as gestantes devem repetir o teste na hora do parto. ''É preciso apenas uma gota de sangue da mãe e o resultado sai em 15 minutos'', diz a especialista. Quanto mais cedo é feito o diagnóstico da Aids, maior é a chance de evitar que o bebê seja infectado. Além disso, quanto antes se inicia o tratamento nos bebês infectados, melhor eles respondem aos medicamentos e maior pode ser a sobrevida deles.
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