Espantos de final de século
Maria Lucia Victor Barbosa
Coisas espantosas andam acontecendo neste final de século. Mesmo porque, elas seriam inimagináveis há pouco tempo atrás. No plano científico, a maior conquista foi o Projeto Genoma Humano que decifrou o código genético. Isto levou o presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, a dizer que tal façanha equivaleu a aprender a linguagem com que Deus criou a vida. Se bem que terráqueos ainda estejam longe de dominar tal escrita, não resta dúvida que sequenciar os 3,1 bilhões de pares de ‘‘letras’’ químicas que compõem o DNA já é algo espantosíssimo, que poderá transformar mais rapidamente a ficção em realidade. Digamos que estamos às vésperas, em termos históricos, do ‘‘Admirável Mundo Novo’’ de Aldous Huxley, no qual seres humanos eram fabricados em série (clones?), e tinham suas vidas inteiramente organizadas e dominadas como numa destas tediosas utopias totalitárias, geralmente sonhadas por românticos ideológicos, perigosas criaturas que toda a vez que planejam o paraíso geram o inferno, como alertou Karl Popper.
Para maior frisson ainda, neste último ano do século XX foram achados indícios de água no planeta Marte, o que reacendeu as suspeitas de que não estamos sós no vasto universo, do qual, aliás, não conhecemos praticamente nada. De qualquer modo, estou associada à maioria da população mundial que acredita em extraterrestres, e só falta eles se manifestarem de forma inequivocamente retumbante neste 2000, já que anteriores aparições de OVNIs sempre foram rechaçadas por cientistas chatos com suas teorias duvidosas, que atribuíram tudo a alucinações e invencionices populares.
Naturalmente, há limites que ultrapassados caem na fantasia. Hoje se sabe, por exemplo, que o ET de Varginha deve ter sido algum disfarce utilizado pelo governador Itamar Franco para escapar das Forças Armadas que ‘‘invadiriam Minas Gerais com armamento de grosso calibre’’. Entretanto, é preciso que uma nave tripulada desça espetacularmente no meio de uma praça pública, para que não paire dúvidas sobre a existência de seres espaciais. Esperemos, porém, que tal coisa não aconteça como no filme ‘‘Independence Day’’, uma vez que isso não seria nada agradável. De todo modo, é melhor nos precavermos, porque como disse Hermes Trimegistro, ‘‘o que está em cima é como o que está embaixo’’, e como somos violentos, predadores e ambiciosos, nunca se sabe o que pode vir dos mundos exteriores.
Na série dos espantos não estamos de fora. No Brasil, de forma incrível, nunca houve tanta cassação de políticos, como se uma onda de moralização varresse o País do dá-se um jeito e da corrupção endêmica. Ao mesmo tempo, apesar de todos arrancarem os cabelos diante da crise, a produção industrial cresceu 6,6% este ano, a inflação está domada, a taxa de desemprego baixou. Em todo caso, preocupados com a crise, os brasileiros praguejam contra o presidente da República e para desanuviar e esquecer os problemas que a crise traz, viajam e compram a mais não poder para vencer o estresse. Sintomas de 2000, síndrome antiga.
Fenômenos de causar espanto já vinham acontecendo ao longo do século, como a ascensão e queda dos sistemas totalitários nazista e comunista. Mas parece que neste derradeiro ano da centúria os desfechos do processo econômico e político, aliado às conquistas científicas e tecnológicas, aceleraram a revolução tecnotrônica e geraram resultados que jamais poderiam ser previstos há, digamos, um ano atrás. Ainda no campo da política aconteceu no México o que parecia impossível: o fim do Partido Revolucionário Institucional (PRI), com a vitória no dia 2 passado do ex-presidente da Coca-Cola mexicana, Vicente Fox Quesada, do Partido de Ação Nacional (PAN). Quem diria! Fox, segundo a imprensa, é conhecido por seus trajes de caubói e pela incivilidade no modo de falar.
Num tempo que já parece longínquo, entre 1876 e 1910, governou o México o caudilho Porfirio Diaz. Ele era cruel e pouco brilhante, mesmo assim foi cônsul dos Estados Unidos, tendo concedido aos estrangeiros de modo geral privilégios exorbitantes, o que lhe permitiu modernizar o México e unificar a Nação, uma vez que antes dele o país havia conhecido 70 anos de revoluções sangrentas.
De 1910 em diante, contudo, o México explodiu numa violência sem precedência na América Latina, tendo vivido em revolução durante vinte anos. Em 1929, as diversas facções revolucionárias foram reagrupadas num partido único, que se chamou primeiramente de Partido Nacional Revolucionário (1929), depois Partido da Revolução Mexicana (1938) e, finalmente, Partido Revolucionário Institucional (1945).
Instalou-se assim no México, o que Mario Vargas Llosa chamou de ‘‘ditadura perfeita’’. E como analisou um dos editoriais do ‘‘O Estado de S. Paulo’’ de terça-feira passada, o sistema implantado pelo PRI funcionou 71 anos ‘‘sob o império do vale-tudo: corrupção, voto de cabresto, violência e fraudes tão institucionalizadas como o controle fisiológico das cliques dominantes do partido outrora revolucionário sobre o Estado, a economia, os sindicatos e os meios de comunicação’’. Práticas, como se nota, que nunca conhecemos em nenhuma época no Brasil, país sério por excelência.
Apesar das desigualdades econômicas existentes no México, a longevidade do PRI se deveu certamente a dois fatores: a interdição da reeleição presidencial, o que dava ao povo a sensação de mudança, e a retórica nacionalista, esquerdista e antiamericanista, que mantinha acesa a chama patriótica das massas.
Na verdade, o México sempre manteve, (como os demais países latino-americanos), um caso de amor e ódio com os Estados Unidos, mas enquanto o PRI se abatia sobre os yankees com uma torrente de palavras revolucionárias, terceiro-mundistas, que exaltavam o camponês, o operário e o índio, de outro selava acordos necessários e úteis ao país. Foi assim que Carlos Salinas Gortari integrou o México ao Nafta, juntamente com os Estados Unidos e Canadá. Agora, com Fox, acabou-se a revolução mexicana, ou seja, a democracia de mentirinha.
Meditem sobre isso, neste final de século, as revolucionárias esquerdas brasileiras. E tentem se dar conta que coisas espantosas estão ocorrendo, pois se as revoluções continuam existindo, são de outro teor.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
E-mail: [email protected]

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