Seja nos grandes centros ou nas pequenas cidades, a palavra em voga é acessibilidade. Não que antes não fosse necessária, mas as pessoas mais atingidas pela falta de espaços públicos adequados - como deficientes visuais, motores e idosos - passaram a exigir com mais ênfase seu direito de ir e vir sem dificuldades ou constrangimentos.
Muitos prédios públicos e privados já fazem suas calçadas com piso tátil, rampas de acesso e elevadores. Mas ainda há muito a ser feito, principalmente junto ao cidadão comum que constrói sua casa ou imóvel comercial. A maioria das cidades tem algumas regras mínimas para balizar essas construções, mas nada de relevante em relação a acessibilidade.
Com isso, tornam-se comuns situações que dificultam ainda mais a vida de quem tem restrições quanto a mobilidade, como trechos que começam com piso tátil e acabam, de repente, em uma calçada comum, com degraus ou material escorregadio.
E com o aumento da expectativa de vida, é primordial que a preocupação com a acessibilidade transforme-se em prioridade. Segundo o engenheiro colombiano Germán Madri, ''nenhuma cidade pode se tornar completamente acessível em poucos anos.'' ''A prefeitura tem que definir prioridades e uma regulamentação que obrigue a previsão de acessibilidade a partir de uma determinada data'', reivindica.
Germán Madri esteve no Brasil durante a Concrete Show 2010, evento internacional de tecnologia em concreto realizado no mês passado em São Paulo, onde fez palestra sobre espaços públicos e concedeu a seguinte entrevista à FOLHA.
Quais os maiores problemas relacionados a mobilidade que o senhor encontra nas cidades?
Os problemas que encontramos nas cidades brasileiras não são diferentes do que encontramos em outras cidades grandes em outros países. É uma deterioração muito profunda da infraestrutura de calçadas e praças. São problemas, portanto, de acessibilidade. A questão não é só definir os critérios de acessibilidade para as pessoas, mas também todo um conjunto de especificações técnicas para a construção desses espaços.
O senhor foi um dos responsáveis pela produção de um projeto modelo de calçadas e pavimentação na Colômbia. Em que consiste esse manual?
Esse manual foi encomendado pela indústria cimenteira da Colômbia e definiu em um só livro as guias para desenho urbanístico e paisagismo do espaço público. Também foram feitas as especificações de materiais e processos construtivos que devem ter estruturas como pisos e meios-fios, detalhes para rampas de acesso para deficientes físicos e os sistemas táteis para pessoas com problemas visuais. Esse manual foi aprovado por Medellín em 2002 e desde então todas as obras de espaço público se fazem de acordo com ele. Isso implicou em maior uniformidade, melhor qualidade e economia para a administração municipal. E essas obras, que se espera, vão durar mais tempo.
É previsto no manual o uso de algum material específico?
O manual tende a ser universal. Não faz uma lista completa dos materiais, mas define as características fundamentais destes. Em geral, os materiais de concreto cumprem os requisitos de segurança e deve-se somente cuidar da qualidade. Por exemplo, o concreto para exteriores pede uma resistência mínima para ser durável. Para os pisos se exige uma resistência a escorregões e ao desgaste.
O ideal é que cada cidade use certos materiais que possam ser produzidos por muitos anos, para que as obras públicas possam ser consertadas e ampliadas com materiais iguais, sem ter que investir em reconstrução completa. Aí é onde a pré-fabricação em concreto mostra seus benefícios, em especial nos pisos e meios-fios ou pavimentos de blocos.
Muitos governantes sabem o que precisa ser feito em termos de acessibilidade, mas não fazem. Como agir nesses casos?
Nenhuma cidade pode se tornar completamente acessível em poucos anos. A prefeitura tem que definir prioridades e definir uma regulamentação que obrigue a previsão de acessibilidade a partir de uma determinada data.
O ideal é reunir todas as instituições que trabalham pela acessibilidade junto com os produtores de materiais e os construtores para que entreguem à prefeitura um documento com o qual possam trabalhar, claro que com a aceitação prévia e participação da prefeitura. A comunidade tem sessões para discussão do manual. Portanto, é um trabalho coletivo. Em outras palavras, se eu não começo a ensinar como as obras acessíveis são construídas, os requisitos teóricos de acessibilidade ficam para sempre só nos livros.

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