Espaços perdidos em Londrina
''Espaços perdidos'' ou ''antiespaços'', são aqueles de uso inadequado e problemáticos, resultantes de intervenções pouco cuidadosas nas cidades, segundo definição de Trancik (1986).
O Pátio Ferroviário em Londrina, outrora símbolo indutor do desenvolvimento, transformou-se hoje num ''espaço perdido''. Até a década de 80, austeros barracões da Rede Ferroviária Federal sobreviviam como testemunhos firmes de uma história que teimavam em representar. Juntamente com a linha férrea, constituíam a chamada última barreira à integração norte-sul da cidade e fator de estagnação da região.
Em 1985, em equipe, desenvolvemos o Projeto Re-Desenho do Antigo Pátio Ferroviário. Contraponto à proposta inicial da prefeitura que previa o parcelamento em lotes, o projeto procurava priorizar o espaço público e preservar a linearidade simbólica. Praças eram previstas no cruzamento com as transversais, alguns barracões reutilizados, e vistas como a do eixo rodoviária/museu e o horizonte seriam preservadas.
A recuperação e a preservação de referenciais urbanos e consequentemente dos aspectos socioculturais da cidade de Londrina, hierarquia e garantia do espaço pedestre, criação de espaços públicos com significado, e a criação de mecanismos de controle efetivo para a organização e estruturação do espaço final eram diretrizes básicas.
O local de uso misto seria transformado num grande centro cultural. Dizíamos na época que, um amplo debate público seria indispensável para que a comunidade passe a compreender e aprovar as normas urbanísticas propostas e as premissas projetuais.
Pouco foi realizado. Exceção ao museu implantado, logo foram construídos o terminal urbano de ônibus e doado o terreno imediato à Pedra - local que concentra dezenas de vendedores de carros usados. As quadras a leste do museu ficariam por longo tempo desocupadas, salvo algum circo que teimava em trazer animação ao local.
A desqualificação seria completada com a construção da Cidade da Criança. O edifício enquanto implantação, cercava a quadra e negligenciava o pátio como um todo. Tal solução seria repetida no Pronto Socorro Infantil (PAI), construído em detrimento ao Teatro Municipal que se previa no local. São edifícios negando a vocação e o significado à estruturação da cidade e mais uma vez demonstrando que ''espaço livre'' para a prefeitura é entendido como ''espaço livre à ocupação''.
Vale lembrar ainda os dois Camelódromos, ali em funcionamento, que causam distopia ao local. As soluções fragmentais, considerando os terrenos como independentes, comprometeram quase que definitivamente o potencial que representavam sete quadras contínuas no centro.
É extremamente preocupante portanto, o destino que se pretende dar à última quadra remanescente daquela região. Melhor solução será a não ocupação. Em caso de dúvida, a opção correta é deixar livre para que no momento oportuno, no futuro, possamos utilizar esta reserva para os fins adequados. A reversibilidade é uma das qualidades que temos que incorporar aos projetos em Londrina.
Se vão doar a alguns, nós, os 508 arquitetos da cidade poderemos pleitear também para construir um belo ''Arquitetódromo'', onde talvez juntos, como justificativa, possamos desenvolver alguns projetos à comunidade. Assim poderiam agir outras categorias. Qual seria a cidade resultante de tal complacência?
Finalizando, salvo as ações relativas ao patrimônio cultural desenvolvidas pela Secretaria Municipal de Cultura, pouco ou nada se tem discutido sobre a revitalização do centro de Londrina. Que papel cabe aos órgãos de planejamento da cidade, a transparência ou o papelão?
- HUMBERTO YAMAKI é arquiteto e presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil/Londrina e coordenador da Câmara de Arquitetura do CREA-PR





