ESPAÇO ABERTO: Um tapa na cara dos brasileiros
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de agosto de 2023
Ludinei Picelli 
Se a forma de nomeação de membros para a Suprema Corte já é um procedimento viciado, o que dizer então quando o designado é amigo e advogado particular de quem o indica. Referimo-nos, especificamente, à recente escolha e aprovação de nomeado para preenchimento de uma vaga no mais alto tribunal do Judiciário.
Neste caso, a situação se mostra mais grave porque envolve a nossa autoridade máxima, julgada e condenada por corrupção em duas instâncias da Justiça, e o seu próprio defensor. O procedimento caracterizou-se como uma barganha de favores escancarada, uma paga imoral e um enxovalho para a nação. Um escárnio, um tapa na cara dos brasileiros. A ética e os valores morais no meio político chegaram ao fundo do poço em Brasília.
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A promiscuidade e o conluio estão impregnados nos poderes da República. Quem nomeia componentes para o Supremo e quem os aprovam perderam o pudor e a decência; o cenário é patético e repugnante. Justamente por isso, apesar de constitucional, o sistema de reposição das vagas abertas deveria ser mudado. O compadrio explícito e os interesses políticos, cada vez mais acentuados, desvirtuam a linha de conduta de determinados ministros, alterando os resultados precípuos esperados da instância mais elevada da nossa Justiça.
Porque não, a composição da Corte ser feita por mérito e competência dentro do próprio Judiciário? Afinal, a exigência do "notório saber jurídico e reputação ilibada" nem sempre é cumprida, muito porque a escolha e aprovação do candidato à vaga muitas vezes são patrocinadas visando atender interesses de quem indica e avalizadas por parte interessada no processo.
Prova é que nos 132 anos de existência da Corte, apenas 5 sabatinados não foram aprovados pelo Senado Federal, sendo que todas essas reprovações ocorreram em 1894, isto é, nos últimos 129 anos nenhum candidato ficou sem receber a toga. Por tudo isso, não é por acaso que amargamos a posição 94ª (entre 180 países) no ranking mundial da corrupção, atrás de várias republiquetas.
Essa cumplicidade entre os poderes nos remete à célebre indignação do grande brasileiro Ruy Barbosa, que em 1914, no Senado da República, num discurso inflamado, declarou: "De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto".
É impressionante a atualidade do texto, que reflete "ipsis litteris" a nossa desilusão diante da capacidade da maioria das nossas autoridades governamentais de trair, roubar, fingir e enganar.
Ludinei Picelli (administrador de empresas) Londrina
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