Espaço Aberto: Terras do Norte: 90 anos
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de setembro de 2015
Humberto Yamaki 
O Paraná era sinônimo de confiança e otimismo no inicio do século passado. Um relatório de governo de 1921 afirmava: "Território vastíssimo de terras fertilíssimas..., de um clima ameno e salubérrimo, desde a apurada terra roxa da zona norte e oeste...até as férteis planícies. O Paraná precisa apenas de braços fortes e intelligentes que desbravem seus sertões e que transforme em searas verdejantes seus magníficos campos". E prosseguia: "Certo, em nenhuma outra parte da Terra o homem encontrará elementos tão favoráveis ao seu bem-estar, como no Paraná. A prova disso são as colônias que aqui se fundaram,
...reinando em todas a mais completa abundância e prosperando todas à sombra de nossas libérrimas leis". Era uma época de grandes planos de viação, concessão de terras devolutas e regulamentação visando o "povoamento".
A possibilidade atual de acesso a farto material documental e iconográfico tem permitido aprofundar as pesquisas sobre o Norte do Paraná. Assim, muito do que se pesquisou e concluiu sobre o papel das companhias colonizadoras pode ser revisto.
Um "Mappa do Estado" de 1912 trazia um conjunto de estudos de ferrovias e estradas. Procuravam ligar o litoral, via capital, aos principais eixos acompanhando os rios do Estado. Resultariam em decretos de concessões.
Este ano faz noventa anos de assinatura da escritura de compra e venda de terras devolutas entre o governo do Estado, a Cia. Marcondes de Colonização e a Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP). Em outubro de 1925, a CTNP adquiriu 350 mil alqueires a 8$000 o hectare e a Cia. Marcondes 38.842 alqueires em terras limítrofes.
A Cia. Marcondes é pouco conhecida entre nós. A imagem que se construiu é de uma empresa que desapareceu sem condições de levar seu empreendimento adiante. Criada em 1920, a Cia. Marcondes iniciou suas atividades com a colonização da gleba Montalvão (SP), onde implantou núcleos ao longo da Sorocabana. No Paraná, conseguiu em 1922 a concessão de ferrovia e área de terras devolutas, não alienáveis. Ficava entre os rios Tibagi, Paranapanema, Paraná e Ivaí. Ainda em 1925, solicita a demarcação das terras Pirapó e Bandeirantes. Somente as terras já vendidas ou reservadas foram consideradas.
O fato é que, em meados de 1925, um inspetor de terras foi enviado para a região de Presidente Prudente (SP) e vale do Pirapó (PR) para avaliar as atividades da Cia. Marcondes. Fica impressionado com a qualidade dos trabalhos de divisão de lotes, criação de núcleos e construção de estradas. No lado paranaense, havia aberto picadas nas duas margens do Pirapó e comercializado as terras na margem direita. Isto tudo antes da chegada da CTNP.
Várias outras concessões de terras estavam em fase de demarcação e legitimação de títulos. Assim, a afirmação usual de pioneirismo, determinação, racionalidade e genialidade única da Companhia de Terras Norte do Paraná merece ressalvas. A intensa propaganda da CTNP onde destacava os títulos legítimos, a fertilidade, água em abundância e passagem de trem gratuita eram, na essência, condições impostas pela regulamentação oficial. O mesmo pode-se dizer sobre os acessos, a formação de núcleos e suas sedes e dimensão de lotes.
Um mapa com a sequência de terras transferidas para a CTNP mostra que, foram incorporadas terras a leste, a partir do módulo inicial de 1925. Visavam adequar à estratégia de governo, de ligação da capital ao Paranapanema.
Os mapas são representações e permitem várias interpretações. A exposição Terras do Norte: 90 anos, realizada atualmente no Museu Histórico de Londrina traz cerca de 20 mapas inéditos. Mapas de viação, de concessão de terras, de expedições e de aquisição de terras fazem parte do conjunto. Outros empreendimentos nas margens do Paranapanema e Tibagi tiveram papel não menos importante na definição do caráter da paisagem regional.
HUMBERTO YAMAKI é coordenador do Laboratório de Paisagem da Universidade Estadual de Londrina
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