No mês em que a Lava Jato completou dez anos do seu início, reportagem desta FOLHA (23/24 de março) traz como enfoque principal críticas de juristas, advogados e lideranças políticas a respeito de abusos e falta de imparcialidade por parte da força-tarefa, do Ministério Público Federal, de Sergio Moro e de Deltan Dallagnol no desenvolvimento da operação que mais prendeu corruptos e que, com vigor ímpar, combateu a corrupção no Brasil.

Outros setores socioeconômicos, incluindo entidades sindicais e a presidente do Partido dos Trabalhadores, PT, alegaram que esse ferrenho combate à corrupção exauriu financeiramente grandes empresas e provocaram o corte de 4 milhões de empregos. Mencionaram tudo isso, sem levar em consideração a escandalosa corrupção que explodiu assustadoramente nos governos da época e que muitos desses críticos tinham interesses diretos ou indiretos na continuidade daquela situação, que beneficiava políticos corruptos e grandes corporações empresariais se locupletando do dinheiro público.

Se ocorreram alguns excessos por parte do comando da operação, hipótese controversa e passível de questionamentos, esses foram ínfimos diante da gigantesca leniência e da permanente impunidade patrocinada por aqueles que têm a obrigação de punir os criminosos do colarinho branco.

Se a 13ª Vara de Curitiba não era o foro adequado para os julgamentos, e por isso os processos foram anulados, então porque as investigações não foram reiniciadas nas varas competentes? Como explicar a anulação, numa simples canetada, de condenações em três instâncias do Judiciário de réus confessos e que devolveram bilhões de reais aos cofres públicos.

Os que falam em irregularidades, alegando açodamento do rito processual das condenações, por outro lado, convenientemente "se esquecem" de mencionar os recursos meramente protelatórios e o abuso que praticam do direito de recorrer, tornando a maior corte da nossa Justiça na mais lenta do mundo. Sepultaram a Lava Jato da forma mais covarde possível. Muito em função disso, o Brasil piorou no ranking mundial da corrupção; descemos 10 posições e estamos vergonhosamente na 104ª colocação. E, acreditem, hoje não temos um corrupto preso no país!

Sob o olhar dos brasileiros que não desistem do Brasil, que não suportam mais tanta bandalheira e de verem bilhões de reais do erário desviados para o enriquecimento pessoal de autoridades desonestas, não há argumentação que nos convença. A teoria pregada pelos que criticam não tem nenhuma relação com a realidade. Por exemplo, um ex-presidente cassado por corrupção, e que agora reincidiu em novas falcatruas, foi condenado a mais de 10 anos de prisão em regime fechado pela instância máxima do Judiciário. Todavia, ainda está em liberdade, passados quase um ano da condenação, apoiado por um embargo para reanálise da dosimetria da pena. E assim vai até a prescrição do crime, baseada nos mais variados motivos pelos quais a legislação penal beneficia os criminosos.

Os críticos da Lava Jato menosprezam provas cristalinas e incontestáveis; fatos que o Brasil inteiro viu e ouviu, inclusive citadas por um ministro no plenário da Suprema Corte. Disse Luiz Roberto Barroso "eu ouvi o áudio 'tem que manter isso aí, viu?' (frase emblemática dita por um ex-presidente a um corruptor, nos porões palacianos de Brasília, sobre pagamento de propinas). "Eu vi a fita das malas de dinheiro, eu vi a corridinha na televisão (deputado levando a mala para um ex-presidente), sem mencionar as documentadas propinas para financiamento público", completou o magistrado.

Outras filmagens de flagrantes indesmentíveis também escandalizaram o país na época das investigações da Lava Jato. O vídeo mostrando o primo de um ex-governador mineiro recebendo a primeira de quatro mochilas de 500 mil reais cada, no total de 2 milhões, em abril de 2017, prometidas por um empresário corruptor para o político e, também, a foto do instante da apreensão, em setembro do mesmo ano, dos 51 milhões de reais acondicionados em caixas de papelão no apartamento de um ex-ministro da República causaram profunda indignação e revolta aos brasileiros.

A corrupção brasileira, naturalizada de alto a baixo sem cerimônias por corruptos e corruptores, sem temor às penalidades porque têm certeza da impunidade, é uma monstruosa tragédia que nos assola, que tira dinheiro da saúde, educação, segurança, saneamento básico e de outros benefícios para a população, acentuando cada vez mais a crônica desigualdade social em que vivemos.

É premente implodir o sistema corrupto que domina os poderes da República, todavia, pelos meios convencionais sustentados pelo próprio sistema é pura utopia. Por isso, os brasileiros probos clamam pela volta da Lava Jato.

Ludinei Picelli, administrador de empresas

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